sexta-feira, 26 de maio de 2017

Leitura para meninas: um punho e um útero.

Livros para meninas?
Há livros que educam meninas? Há literatura produzida para emancipar meninas? O que é uma menina?
Para a escritora Fernanda, 15 anos, “menina é o símbolo da inocência, da ingenuidade, longe de pensamentos machistas, em que meninas são criaturas mais fracas e sua inocência vem do não saber as coisas”. Para ela, “meninas lembram beleza, luz, tudo de mais lindo que o mundo traz. E com certeza, a sabedoria e a inteligência”.
Para uma estudante de Pedagogia de 34 anos, “menina é a definição, em nossa cultura, para a criança que nasce com o sexo feminino. É uma expressão usada para diferenciar menina de menino, baseada no formato das partes íntimas, vagina e pênis. É o mesmo que guria, para nós gaúchos. Após certa idade – indefinida, pois não se sabe quando começamos nos chamar mulher – deixamos de ser meninas e passamos a ser mulheres. Nascemos mulheres, por causa da definição biológica. Para suavizar a carga e adoçar, chamamos "meninas" as crianças do sexo feminino. Muitas mulheres adultas são chamadas de meninas. Em qualquer idade. E muitas acham difícil ser chamadas de mulheres, pela carga que este nome tem, às vezes, pejorativo. Menina adoça, mas, queremos ser doces pelo restos de nossas vidas? Acredito que a resposta venha de outra pergunta: Queremos ser amargas pelo resto de nossas vidas?”.                      
Observando...
Observando essas duas considerações diante de tantas outras que recebi após uma pesquisa informal, retorno à pergunta: Há livros endereçados para meninas? Neste caso, o que os aproximam, o que os tornam imprescindíveis?
Narrando mulheres
Anteriormente à profusão de títulos que, desde os anos 80 vêm sendo produzidos com a proposição de abordar a educação de crianças com mais delicadeza, criatividade, pertencimento, gentileza, alguns de nossos autores já se debatiam com a figura feminina. Um deles, João Simões Lopes Neto que, há 100 anos, mostrou-se estarrecido com a fúria amorosa e destruidora de Tudinha, em “O negro Bonifacio”. Outro, Erico Verissimo, um interiorano soterrado pela exuberante adolescência e o inevitável nascimento da vida adulta em “Clarissa”. O último, Mário Quintana, inconforme com o poder de escolha das mulheres em “As três moças de encruzilhada”.
Sim.
Três autores.
Três homens.
Três vozes.
Passados esses primeiros tempos, narradas essas meninas, mocinhas e até velhotas, a literatura passa a oferecer indícios de que às mulheres – e às meninas, também – restava pensar. Não que isso – pensar – ainda não houvesse sido sugerido, tematizado. Le petit Chaperon Rouge, conto de fadas de origem européia publicado pela primeira vez em 1697, pelo francês Charles Perrault, é um recado à infância e às meninas: os lobos existem, eles são perigosos, eles se disfarçam, eles matam.
Apesar dos trezentos e vinte anos que nos separam dessa primeira grafia de Chapeuzinho Vermelho, a natureza e a cultura das mulheres e sobre as mulheres parecem ter aprendido pouco. Em busca de caçadores, de lenhadores, de salvadores, as meninas e até mulheres adiam o protagonismo das próprias vidas.
Enredadas em tramas – sussurros, promessas, discursos, lenga-lengas – atribuem ao outro (o pai, o padrasto, o irmão, o colega da escola, o namorado, o noivo, o amante) seu destino. E os números indicam que o destino nem sempre é sair da barriga do lobo.
Meninas na escola: evidências
Ao desenvolver, por um ano, um trabalho de restauro em uma biblioteca escolar na periferia urbana de Pelotas, pude conhecer meninas. Observar se ainda se parecem com a menina que um dia fui e o quanto se diferenciam.
No pátio, em jogos e brincadeiras, as meninas revelam o que pensam, como agem, o que esperam, sonham, almejam. Ali, livres dos limites da sala de aula e dos programas curriculares, exploram e usufruem da companhia umas das outras e, também, da presença/ausência dos meninos.
O que pude observar? Quais foram as revelações dessa escuta “por acaso”? O que ficou evidente?
Uma de minhas observações é que o ambiente escolar que nós, adultos, destinamos aos nossos pequenos – crianças e adolescentes, aos infantes de nossa espécie – é adulto: nele não há cor, brinquedos, infância. Em parte considerável das escolas há paredes, corredores, quadras, muros, cercas e móveis em que predominam as cores frias.
Percebi, também, que no pátio, as meninas entre 11 e 16 anos são expostas precocemente à linguagem destrutiva, focada na imagem/aparência de seus corpos, etnias, opções sexuais, escolhas estéticas.
Observei ainda que, em parte considerável das vezes em que há contendas, as disputas ocorrem no “corpo-a-corpo” e, ameaças, empurrões, beliscões e outras brutalidades, substituem argumentos.
Uma estarrecedora evidência foi que as meninas são precocemente empurradas a “revelar” sua sexualidade, a “assumir” um modo de ser e gostar de ser, perdendo o direito de circular livremente entre os grupos de meninas ou de meninos.
Além dessas evidências observadas no interior da escola, percebi que saberes acerca delas – as meninas – circulam. Notícias ou maledicências que chegam da rua/bairro em que vivem e que compõem o “currículo” delas. Como exemplo, a precocidade da vida sexual, revelada pela manutenção de relacionamentos “firmes” desde muito cedo e um discurso desabonador vinculado à sexualidade, repleto de expressões como “Deu para quem? Aquela ali dá para qualquer um... Vai dar ou fazer doce? Esta é usada, já teve barriga”, entre outras. Penso que esses saberes que circulam – os scripts de gênero ou cultura que legitima, demarca e estabelece modos de ser para as masculinidades e as feminilidades –, de acordo com Felipe, Guizzo & Beck, 2013 – evidenciam a crença de que a sexualidade não é escolha, direito, desejo da menina e, sim, a materialização do desejo do outro, o pai, o irmão, o colega, o grupo de colegas, o namorado.
Compreendi que, muitas vezes, o fato de ter nascido menina resulta em maternidade imposta: a sua, precocemente, ou a de seus irmãos, quando a mãe lhe atribui o cuidar dos demais. Às vezes até, como castigo: se comportou mal, engravidou.
Leitura para meninas: o projeto
Observando de um lócus privilegiado – a escola – e por um tempo considerável – um ano –, decidi, a partir de então, reunir um acervo literário para pensar sobre estas “questões de gênero”. Focando a busca por obras que sugerissem protagonismo, o intuito era criar um programa de leituras para meninas. Sonhava em dialogar com elas sobre liberdade para pensar e escolher, pois sei de nossas diferenças, a primeira delas, geracional.
Não pretendo falar pelas meninas. Sei do inútil que é impor pautas e resoluções, conceitos e teorias, análises e estatísticas.
O lobo, por velho e sábio, conhece o mel. Não usa o fel. Quem nunca provou?
Assim, reuni, entre os títulos de minha biblioteca, um grupo de livros que têm em comum, temas ou protagonistas meninas, mocinhas ou mulheres que extrapolam os clássicos papeis destinados culturalmente ao gênero feminino. Na construção dessas personagens e tramas, os autores e autoras apresentam a nós, leitores, perfis, ideias, tramas e desfechos inusitados, inteligentes, bem humorados, afetivamente includentes e com lógicas não violentas.
O que eu pretendo com esses livros?
Encantar e fazer pensar.
Dizer às meninas que elas existem, não são bando, não precisam ser iguais, tem direitos, podem expressá-los, podem fazer escolhas, não estão sozinhas. Intenciono, também, ouvir, conhecer e aprender a dialogar com as meninas.
As obras indicadas
Os livros que selecionei e que indico são: Maria vai com as outras, de Sylvia Orthof; Teresinha e Gabriela, de Ruth Rocha; A Zeropéia, de Herbert de Souza, uma obra que marcou a literatura infantil para pensar; Bisa Bia, Bisa Bel, de Ana Maria Machado; Pandolfo Bereba, de Eva Furnari; Mania de Explicação, de Adriana Falcão; Sebastiana e Severina, de André Neves; Nós, de Eva Furnari; Ceci tem pipi? De Thierry Lenain; Chapeuzinho Amarelo, de Chico Buarque; Ervilina e o princês, de Sylvia Orthof; Selma, de Udo Araiza; Espelho, de Suzi Lee; Vermelho Amargo, de Bartolomeu Campos de Queirós; Uma chapeuzinho vermelho, de Marjolaine Leray;  O cabelo de Lelê, de Valéria Belém;  Orie, de Lúcia Hiratsuka;  O livro dos grandes opostos filosóficos, de Oscar Brenifier e Jacques Després; Inês, de Roger Mello e Mariana Massarani e A ervilha que não era torta... mas deixou uma princesa assim, de Maria Amália Camargo.
Por fim, indico um título.
Para pensar.
Um útero é do tamanho de um punho, de Angélica Freitas.
Fiquemos com o título, pleno de sentidos.
Observemos duas das palavras contidas nele:
Útero.
Punho.
Lembremos...
Todos temos punhos.
Só as meninas tem útero!



[1] Para conhecer conceitos a respeito do termo "menina", empreendi uma pesquisa informal realizada em 25 de maio, endereçada a uma rede restrita de contatos. Acompanhe todas as repostas em: http://crisalfabetoaparte.blogspot.com.br/2017/05/o-que-e-uma-menina-resultados-de.html
                      


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Alfabeteando...

Olá, bem vindo!

Um "Alfabeto à parte" foi criado em setembro de 2008 e tem como objetivo discutir a leitura e a literatura na escola. Nele disponibilizo o que penso, estudos sobre documentos raros e meus contos, além de uma lista do que gosto de ler.

Em 2013 concluí pesquisa sobre o Abecedário Ilustrado Meu ABC, de Erico Verissimo, publicado pelas Oficinas Gráficas da Livraria do Globo em 1936. O lançamento do livro e sua repercussão estão no Blog. Alguns artigos sobre a pesquisa também. Leia e dê sua opinião.

A novidade, em 2015, foi a inauguração da Sala de Leitura Erico Verissimo, um sonho antigo que agora se realiza. Em 2016, o processo de restauro da Biblioteca na Escola Fernando Treptow, inaugurada em 25 de novembro.

Em 2017 estou produzindo a Biografia de João Bez Batti. Através de relatos pessoais nos quais a criançaque João foi é a personagem principal, recosntruo, com narrativas litetárias, seu descobrimento como escultor. Bilíngue (português e italiano) o livro tem data para ser lançado: 11/11/2017.

Abraço

Cristina

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