Alfabeteando...

Olá, bem vindo!

Um "Alfabeto à parte" foi criado em setembro de 2008 e tem como objetivo discutir a leitura e a literatura na escola. Nele disponibilizo o que penso, estudos sobre documentos raros e meus contos, além de uma lista do que gosto de ler.

Recentemente concluí pesquisa sobre o Abecedário Ilustrado Meu ABC, de Erico Verissimo, publicado pelas Oficinas Gráficas da Livraria do Globo em 1936. O lançamento do livro e sua repercussão estão no Blog. Alguns artigos sobre a pesquisa também. Leia e dê sua opinião.

A novidade, em 2015, é a inauguração da Sala de Leitura Erico Verissimo, um sonho antigo que agora se realiza.

Abraço

Cristina

sábado, 13 de agosto de 2016

Longevas Pelotenses

Em uma casa de tecidos, João também trabalhou.
Por três anos.
1956. 1957. 1958.
Ali conheceu as gurias pelotenses.
Aos moldes das moças de Quintana, eram três.
Pelotenses, as de João.
De Encruzilhada, as do Quintana.
Mas três, as moças dos dois.
As de Quintana sonhavam enganar a morte.
As de João, conseguiram.
Presentes na memória de João, invadiram a minha.
Vida.
E passaram a existir desde então.
Como encontrá-las se não as conheço?
Como tomar um chá com bolo na confeitaria, se nunca as vi?
Como saber delas, de seus ais, seus encantos, seus namoros, seus passos em Paris?
Só isso eu sabia: estiveram na França, nos idos dos 50. Estudaram por lá. E voltaram, as três, para conhecer João.
Conheceram.
Observaram.
Leram seus desenhos.
Uma árvore.
Com raízes. Disse ele.
E desenhou no ar, para mim, a árvore de sua memória no papel para as três moças.
As três longevas pelotenses.
Com detalhes, completou.
E eu imaginei a árvore.
E as mãos de João, hoje talhadas em pedra bruta, elas mesmas ferramentas em tantos anos, voltaram a ser mãos de então. Os olhos, brilhando ao rememorar árvore frondosa, Perspicilium, para que eu visse o passado.
Estou em busca delas, as três moças, desde então.
Planejo cada passinho.
Já reservei uma mesa.
Não abro mão de um café.
E já escolhi minha roupa.
Quero escutá-las.
E dar a notícia ao João.
Quero saber seus nomes.
E quero apresentá-los:
- João, estas são as três moças que te conhecem desde as raízes, quero entoar.

Não perco esse café por nada!

Literatura: necessidade universal imperiosa

Inspirada na leitura que recentemente fiz, elaborado por Luis Camargo, voltei a um belíssimo escrito de Antonio Candido[1]. Filiando-me a seus ensinamentos, afirmo que a literatura contribui para a humanização e enriquecimento do indivíduo e da sociedade. Cito suas palavras para dizer que acredito que “as produções literárias, de todos os tipos e todos os níveis, satisfazem necessidades básicas do ser humano, sobretudo através dessa incorporação, que enriquece a nossa percepção e a nossa visão do mundo”
E por que a literatura é “uma necessidade universal imperiosa” e “fruí-la é um direito das pessoas de qualquer sociedade” como defende Candido?
O argumento central que responde a esta questão está na própria produção literária que, desde muito tempo acompanha a narrativa do que é tornar-se humano em tempos de história e memória de nós mesmos. Para Antonio Cândido, desde “o índio que canta as suas proezas de caça ou evoca dançando a lua cheia até o mais requintado erudito que procura captar com sábias redes os sentidos flutuantes de um poema hermético” o que move esses personagens – sujeitos em busca de representar-se – é a humanização.
Para Antônio Cândido, a humanização é “o processo que confirma no homem aqueles traços que reputamos essenciais, como o exercício da reflexão, a aquisição do saber, a boa disposição para com o próximo, o afinamento das emoções, a capacidade de penetrar nos problemas da vida, o senso da beleza, a percepção da complexidade do mundo e dos seres, o cultivo do humor”. E, afirma: é a literatura que desenvolve em nós “a quota de humanidade na medida em que nos torna mais compreensivos e abertos para a natureza, a sociedade, o semelhante”.



[1] CANDIDO, Antonio. Vários escritos. 3ª ed. revista e ampliada. São Paulo: Duas Cidades, 1995.)