terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Eu recomendo: Bem do seu tamanho...

Encontrei “Bem do seu tamanho”, um conto em capítulos, quase uma novela de Ana Maria Machado, quando procurava um presente de ano novo para minha sobrinha Ana Clara.
Na livraria, abri para ler e não resisti: comprei. E não parei mais de admirar esse conto bem levinho e profundo ao mesmo tempo.
Fiquei imaginando a Ana Clara pensamentando durante a leitura dele...
E curiosa por saber o que ela pensaria e diria de cada uma das situações que uma menina, quase do tamanho dela, vive nessa aventura.
Repleto de imaginação que a linguagem peculiar de Ana Maria Machado deixou parecendo verdade inventada ou invenção verdadeira, nele, a autora apresenta a infância como a idade da dúvida.
E é.
No livro, não há conceitos, embora o leitor não deixe de encontrá-los.
No livro não há lições de moral, embora elas possam ser depreendidas sutilmente.
No livro há crianças, personagens que mergulham em si mesmas e levam a sério suas dúvidas, seus desejos de saber.
As questões de Helena, a personagem do texto inteiro, extrapolam seu projeto inicial – descobrir seu tamanho – ao conectar-se com outros: os talentos de Tipiti, as palavras de Flávia, as dívidas do retratista, as alegrias do povo. E tem bicicleta, burrico, boi de mamão, pescaria, varandas e punhos de rede.
E tem viagem, descanso, saudade.
Pequena ou grande?
Essa é a questão de Helena.
Leia um trecho:
“Era uma vez uma menina. Não era uma menina deste tamanhinho. Mas também não era uma menina deste tamanha. Era um amenina assim mais ou menos do seu tamanho. E muitas vezes ela tinha vontade de saber que tamanho era esse, afinal de contas. Porque tinha dias que a mãe dela dizia assim;
– Helena, você já está muito grande para fazer uma coisa dessas. Onde já se viu uma menina do seu tamanho chegar em casa assim tão suja de ficar brincando na lama? Venha logo se lavar.
Então ela achava que era bem grande.
Mas às vezes, também, o pai dela dizia assim:
– Helena, você ainda é muito pequenininha para fazer uma coisa dessas. Onde já se viu uma menina do seu tamanho ficar brincando num galho de árvore tão alto assim? Desça já daí. Senão, você pode cair.
Aí Helena achava que ela era mesmo uma bebezinha que não podia fazer nada sozinha.
E era sempre assim. Na hora de ira ajudar no trabalho da roça, ela já era bem grande. Na hora de ir tomar banho no rio e nadar no lugar mais fundo, ela ainda era muito pequena” (Machado, 2003, p. 05).

Aventura que acontece na roça – essa região brasileira desconhecida para leitores urbanos – Bem do seu tamanho é uma narrativa singular bordada com os desenhos e as cores da Mariana Massarani, uma excelente ilustradora brasileira.
É um livro para as férias, para ler e ler de novo em tardes chuvosas, quando o sol fica escondido imaginando o que inventaremos sem ele...
Leia Bem do seu tamanho.
Leia escritores brasileiros!

Leia Ana Maria Machado!

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Você me chamou de feio, sou feio mas sou dengoso: eu recomendo!

Condidada a sugerir um livro para os ouvintes do Programa Tons e Letras da FM Cultura de Porto Alegre, escolhi um presente de natal.
O titulo é: Você me chamou de feio, sou feio mas sou dengoso! de Ricardo Azevedo com ilustrações de Eva Furnari.
Nesse livro há 21 textos, entre eles, charadas, receitas, recontos, adivinhas e contos. O primeiro deles é “Se a terra não existisse a gente pisava onde?”
Quer conhecer um pedacinho deste conto?
Eu leio...

Se a terra não existisse a gente pisava onde?
O tênis é de lona e borracha. A cueca é de pano e elástico. O caderno é de arame e folha de papel, A televisão é de plástico com filme, novela e gente com riso de propaganda dentro e uma tela na frente. A casa é feita de telhado, parede, piso porta e janela. A vaca é de couro, chifre e quatro tetas pingando leite. O cachorro é um ônibus cabeludo cheio de pulgas. O ser humano é feito de carne, osso, coração e ideias passando pela cabeça.
E o mundo em que vivemos?
O mundo é um monte de terra cercada por água cercada por todos os lados. A água é o mar, o rio, o lago, a chuva, a lágrima e o cuspe. A terra é a terra mesmo.
É tão importante que, se passar um extraterrestre pilotando um disco voador, brecar no céu e perguntar como chama isso aqui, qualquer criança de colo vai gritar:
- Isso aqui é a terra, nunca viu não?
Tem gente que pensa que terra só serve para cavar buraco no chão, para ser hotel de minhoca, para enfiar poste de luz ou então para sujar o pé de lama em dia de chuva, mas não é nada disso.
Se não “fosse a terra, a gente pisava onde?

Livros que abordam as questões humanas, de onde viemos e para onde vamos, por exemplo, são raros na literatura para crianças.
Mas existem.
Por que tu deves ler esses textos? Por que apresentar questões complexas aos pequenos?
Um primeiro bom motivo é que eles inserem crianças no que temos de melhor: o pertencimento!
À uma família, a um grupo social, a uma espécie, a humana.
Ao ler e pensar, nos tornamos humanos. Cada vez mais...
Leia para os seus pequenos.
Leia os escritores brasileiros.
Leia para os seus sobrinhos, filhos, netos.
Presenteie sempre com livros!
E ouça o programa Tons e Letras. Ele vai ao ar às 11 horas dos sábados, na FM Cultura de Porto Alegre.

Ficha técnica:
Tons & Letras
Apresentação: Luís Dill
Produção: Luís Dill
Horário: Sábados, às 11h
Twitter: @fm_cultura
Facebook: fmcultura107.7

Alfabeteando...

Olá, bem vindo!

Um "Alfabeto à parte" foi criado em setembro de 2008 e tem como objetivo discutir a leitura e a literatura na escola. Nele disponibilizo o que penso, estudos sobre documentos raros e meus contos, além de uma lista do que gosto de ler.

Em 2013 concluí pesquisa sobre o Abecedário Ilustrado Meu ABC, de Erico Verissimo, publicado pelas Oficinas Gráficas da Livraria do Globo em 1936. O lançamento do livro e sua repercussão estão no Blog. Alguns artigos sobre a pesquisa também. Leia e dê sua opinião.

A novidade, em 2015, foi a inauguração da Sala de Leitura Erico Verissimo, um sonho antigo que agora se realiza. Em 2016, o processo de restauro da Biblioteca na Escola Fernando Treptow, inaugurada em 25 de novembro.

Em 2017 estou produzindo a Biografia de João Bez Batti. Através de relatos pessoais nos quais a criançaque João foi é a personagem principal, recosntruo, com narrativas litetárias, seu descobrimento como escultor. Bilíngue (português e italiano) o livro tem data para ser lançado: 11/11/2017.

Abraço

Cristina