quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

O Lagarto, de José Saramago

O livro que recomendei hoje, 07 de dezembro aos ouvintes do programa Tons & Letras (http://www.fmcultura.com.br/lista/564/tons-&-letras) como imprescindível neste final de ano é O lagarto, de José Saramago. Conto breve incluído no livro A Bagagem do Viajante, foi publicado originalmente em 1973 e é uma “história de fadas” repleta de ironia e poesia. Ouça como inicia:
“De hoje não passa. Ando há muito tempo para contar uma história de fadas, mas isso de fadas foi chão que deu uva, já ninguém acredita, e por mais que venha a jurar e tresjurar, o mais certo é rirem-se de mim. Afinal de contas, será minha simples palavra contra a troça de um milhão de habitantes. Pois vá o barco à água, que o remo logo se arranjará”.
No Brasil, o conto foi publicado pela Companhia das Letrinhas e chega às mãos dos leitores em uma encadernação vigorosa: é colorido, ilustrado com xilogravuras de página inteira, possui capa dura e foi impresso em papel produzido a partir de fontes responsáveis. Para ampliar seus atributos, há minibiografias do autor e do ilustrador nas páginas finais. Mas é no site acasajosesaramago.com[1] que li a seguinte informação: “Cabe esclarecer que saramago é uma planta herbácea espontânea, cujas folhas, naqueles tempos, em épocas de carência, serviam como alimento na cozinha dos pobres”. São palavras do escritor em sua autobiografia referindo-se a seu nome e a sua origem.
Saramago alimento. Concordo!
Mais um pedacinho, que o melhor do livro é sua escrita:
“A história é de fadas. Não que elas apareçam (nem eu o afirmei), mas que história há de ser a deste lagarto que surgiu no Chiado? Sim, apareceu um lagarto no chiado. Grande e verde, um sardão imponente, com uns olhos que pareciam de cristal negro, o corpo flexuoso coberto de escamas, rabo longo e ágil, as patas rápidas. Ficou parado no meio da rua, com a boca entreaberta, disparando a língua bífida, enquanto a pele branca e fina do pescoço latejava compassadamente”.
Uma peculiaridade – as xilogravuras feitas especialmente para o livro pelo artista popular brasileiro José Francisco Borges – reapresentam para os leitores uma técnica de origem chinesa, produzida a partir de entalhe em madeira. A imagem resultante é o contrário do que foi talhado, exigindo do artesão o conhecimento de cores, sombra e luz, frente e verso, entre outras habilidades. Quando mergulhada em tinta, imprime os relevos deixados propositalmente e a xilogravura pode ser considerada tataravó das impressoras atuais, até mesmo as 3D.
Aparentemente um conto para crianças (pela encadernação e colorido, tamanho e formato do livro e até mesmo pela proposta de Saramago em nomeá-la conto de fadas), O Lagarto foi lançado em 2016 pela Fundação José Saramago. O autor, falecido em 2010, é o mais reconhecido escritor em língua portuguesa e suas publicações são, a cada dia, redescobertas por novos leitores.
Apresente Saramago para os seus!
Eles vão ficar encantados com este conto de fadas, embora, como escreve Saramago, “isto de contos de fadas já não é nada o que era”! Quer conhecer o desfecho da narrativa sobre o lagarto que apareceu no Chiado? Leia O lagarto, de José Saramago.
Cultive os autores em língua portuguesa e não deixe de presentear livros no Natal.

O lagarto, de José Saramago.
Cristina Maria Rosa, 07 de dezembro de 2016.
Ficha técnica:
Tons & Letras
Apresentação: Luís Dill
Produção: Luís Dill
Horário: Sábados, às 11h
Twitter: @fm_cultura
Facebook: fmcultura107.7

sábado, 26 de novembro de 2016

GELL entrega Biblioteca restaurada à Escola Fernando Treptow

Na sexta, dia 25 de novembro, em evento repleto de alegria e informalidade foi entregue à comunidade da Escola Estadual de Ensino Fundamental Fernando Treptow a nova Biblioteca Escolar. Restaurada durante o ano de 2016 (entre abril e novembro) por uma equipe de estudantes da FaE/UFPel, o espaço de 100 metros quadrados ficou pronto para uso e foi inaugurado com uma visita guiada, na qual aspectos do restauro foram abordados e explicitados pelos integrantes da equipe aos visitantes
Organizado em cinco ambientes (recepção, leitura individual, espaço de pesquisa, miniauditório e sala de leitura literária), o restauro da estrutura e dos móveis além da ambientação foram os pontos-chave escolhidos para a explanação oral. A visita a cada ambiente, acompanhado pelo olhar atento de todos, foi repleta de elogios à equipe que se esmerou para integrar modos de ser e viver em uma Biblioteca, uma vez que não apenas crianças a frequentarão.
Na manhã do dia 25, a presença da Direção da FaE, nas pessoas do professor Rogério Würdig (Diretor), professora Heloísa Duval (Chefe do DF) e professora Lílian Lorenzato (Coordenadora Pedagogia a Distância), foi importante para todo o grupo presente.
Signatário do Manifesto pela Biblioteca Escolar (UNESCO, 1999), que tem como um dos objetivos “desenvolver e manter nas crianças o hábito e o prazer da leitura e da aprendizagem, bem como o uso da biblioteca ao longo da vida”, o Brasil, desde 2010, possui uma lei (Lei Nº 12.244 de 24 de maio de 2010) que determina a existência, em toda instituição de ensino do país, de bibliotecas. No Rio Grande do Sul, um documento elaborado pelo Sistema de Bibliotecas Escolares (SEBE, 2009) é que rege os princípios e procedimentos a respeito do assunto nas instituições públicas de ensino. O projeto considerou esses três documentos para propor os ambientes de fruição do livro e da leitura. Detalhes como circulação, móveis, climatização, cores, iluminação e distribuição dos livros em ambientes foi priorizado.
Localizada na periferia urbana de Pelotas, a escola Fernando Treptow atende a aproximadamente 580 crianças e adolescentes, em dois turnos (manhã e tarde) além de ofertar educação a 243 Jovens e Adultos. A Biblioteca anterior tornou-se, aos olhos da Direção, inadequada, demandando uma intervenção. O convite, endereçado à Universidade, foi recebido em março e as atividades iniciariam em abril, com a produção de uma planta baixa para orientar a "reforma".
O acesso a rotinas diárias como ler, fazer pesquisa e buscar um dicionário foi modificado. Visitas à obra e espiadas pelas janelas foi uma constante. Assim, a entrega foi cercada de expectativas: o que dirão as crianças quando entrarem na Biblioteca na segunda, dia 28 de novembro? Uma palhinha do que virá foi observada na presença de um menino, filho de uma das professoras e estudante da escola que esteve na cerimônia de entrega. Para ele, que já tinha visitado a reforma e aprendido a lixar cadeiras, instalar fechadura, customizar móveis e pintar o painel criado pela Professora Elisa Vanti na parede do espaço infantil, a Biblioteca ficou “muito linda”.
Compreendendo uma biblioteca como um espaço destinado a políticas de leitura e estas como um processo de acesso, uso, fruição e trocas relativas ao artefato mais importante de nossa cultura escrita, para Cristina Rosa, coordenadora do processo de restauro, a biblioteca é o único espaço que não pode faltar em uma escola e, nas escolas de ensino fundamental, deve ser especializada no atendimento a crianças entre seis e quatorze anos de idade, tempo destinado a formação do leitor.
A escola, em retribuição, abriu a Biblioteca à Universidade, oferecendo o espaço para minicursos, oficinas, estudos e intervenções no campo da leitura e da literatura, bem como da pesquisa. Estágios acadêmicos, que já ocorrem ali, foram incentivados aos demais cursos de Licenciatura da UFPel. A Licenciatura em Física aceitou e já em 2016 orienta dois estudantes que realizam lá seus pré-estágios. Além deles, uma estudante de Pedagogia realiza ali seu estágio em Gestão Escolar. Para a Direção da Escola, foi um momento importante de conhecer de perto o trabalho da FaE/UFPel, materializado em presença constante e intervenção.
As ações de restauro, realocação de móveis e utensílios foram desenvolvidas por um grupo de estudantes vinculados ao GELL – Grupo de Estudos em Leitura Literária e ao Projeto de Extensão Leitura Literária na Escola, ambos abrigados na FaE/UFPel. Intervenções no piso, paredes, instalação elétrica móveis e troca de fechadura da porta foram de responsabilidade do Estudante de Letras da CLC/UFPel Alex Nunes, integrado à equipe desde o início do projeto. As crianças, quando visitaram a obra, aprenderam como manipular lixadeira, furadeira, marreta e talhadeira. Apoiada pelo PET Educação, a equipe está pronta para responder a outros convites que já chegaram e prepara um livro digital com os resultados da intervenção.
O livro será fruto dos relatórios fotográfico e escrito elaborados a cada dia e referentes a todo o processo de trabalho que demandou 35 turnos de três horas (105 horas/trabalho na obra) além de recursos financeiros - cinco mil reais, aproximadamente - capturados entre doadores como ex-alunos da escola, profissionais que lá realizaram estágios e comunidade em geral além de docentes da Escola e da FaE/UFPel. As notas fiscais de compra de todos os aviamentos utilizados na obra como cola, tinta, lixas, pincéis, rolos, água, solventes, ferramentas, cortinas, adereços, adesivamento das cadeiras, lâmpadas, forração das mesas, instalação elétrica entre outros, integram os relatórios.
Pessoas do Brasil inteiro se manifestaram elogiando a iniciativa e poetas enviaram mensagens de apoio que foram impressos e integram uma galeria de textos escritos em homenagem ao livro, à literatura e ao trabalho da equipe. Na cerimônia de entrega da Biblioteca, este foi um dos locais mais visitados pelos convidados. Para visitar a Biblioteca, não há mistério: dirija-se à Escola Fernando Treptow, no bairro Fragata, solicite entrada ao porteiro e indique que leu esta matéria. Tu serás bem recebido! Em agradecimento e com profunda gentileza, a Direção da Escola escolheu um nome para o novo espaço: Biblioteca Cristina Maria Rosa. 

Alfabeteando...

Olá, bem vindo!

Um "Alfabeto à parte" foi criado em setembro de 2008 e tem como objetivo discutir a leitura e a literatura na escola. Nele disponibilizo o que penso, estudos sobre documentos raros e meus contos, além de uma lista do que gosto de ler.

Em 2013 concluí pesquisa sobre o Abecedário Ilustrado Meu ABC, de Erico Verissimo, publicado pelas Oficinas Gráficas da Livraria do Globo em 1936. O lançamento do livro e sua repercussão estão no Blog. Alguns artigos sobre a pesquisa também. Leia e dê sua opinião.

A novidade, em 2015, foi a inauguração da Sala de Leitura Erico Verissimo, um sonho antigo que agora se realiza. Em 2016, o processo de restauro da Biblioteca na Escola Fernando Treptow, inaugurada em 25 de novembro

Abraço

Cristina