quinta-feira, 12 de outubro de 2017

As memórias de Infância de João Bez Batti - livro digital



João Bez Batti, o personagem
Cristina Maria Rosa


João Bez Batti em seu ambiente natural – a casa, menos, o atelier, sempre – é um sujeito em estado profundo de criação.
Uma visita lhe atrapalha.
Um papinho furado lhe incomoda.
Manifestações ao “grande artista” são dispensáveis.
- Elas gostam do personagem, costuma dizer.
Assim que, ou eu me credenciava imediatamente, ou perderia a oportunidade de acessar a ferramenta: as mãos de João na pedra.
O cenário onde vive esse personagem é deslumbrante. Eu nunca vira um atelier a campo aberto. Rochas – basaltos de todas as cores e tamanhos – povoam cada metro importante da área do terreno no qual estão assentados os locais por onde circula o scultore e suas companhias: um pomar, as flores, os animais domésticos e selvagens, o ajudante de muitos anos e as edificações.
Amante das frutas no pé, as rochas disputam com pitangueiras, pessegueiros, ameixeiras e até uma videira, todas pretensiosamente sem veneno, o espaço e o direito de se tornarem arte. Das mãos de João já comi pitangas, ameixas e pêssegos. Espero comer as uvas.
Amante dos animais, a quem trata “na pancadaria” com um matador de moscas, sobre as rochas gatos se adaptaram como cabras: elegantes, serpenteiam entre frestas, desde filhotinhos e bebem leite em um côncavo que o neto Pedro aprofundou lixando.
Amante de boa música afastou-se mato adentro e, repleto de projetos, maquetes, rochas, descartes mais ferramentas de todos os tipos e tamanhos, esculpe o que lhe vem à mente desde guri.
Ali, no seu espaço restrito, poucos adentram.
Eu queria ir lá, desde sempre.
Sonhava em pisar seu solo e produzir uma imagem de meus pés nele. Depois perguntar para ninguém conseguir responder: onde estou?
No dia em que cheguei, João me recebeu como a uma turista. E por um tempo – curto, pois não tenho tempo para firulas quando se trata de amizade – eu deixei que ele assim pensasse, observando se poderíamos ir além, ele e eu, como dois iguais: humanos que vivem da imaginação, que transformam o que pensam em arte, que emocionam e que não vivem sem reconhecimento.
Observado o atelier, uma sala imensa e repleta de obras dos muitos anos de produção do escultor que se localiza na casa principal, solicitada a permissão para uma ou duas imagens, não resisti e confessei o desejo de ver a oficina. Para dar força ao desejo, retórica:
- Atravessei o Rio Grande do Sul para te conhecer...
Parece que deu certo, pois ainda hoje, passados alguns meses desse primeiro dia, João, quando me apresenta a outros de lá – amigos, conhecidos, familiares – menciona a frase de efeito.
E o efeito foi ter empreendido atrás dele, seguindo seus passos rápidos, uma caminhada pelos muitos metros que separam a casa branca com flores nas janelas em direção às oficinas. Agora, ao escrever, me vem à mente a surpresa com seu andar rápido neste dia frio e seco. Era 31 de julho de 2016 e eu não queria mais ir embora de Bento Gonçalves.
Sanguíneo surge desse contexto. É a marca que o conhecimento das cores do basalto ressaltada pela rega das mãos de João sobre a pedra esculpida produziram em mim. Sanguíneo – uma cor inventada por Bez Batti para um raro matiz de basalto e uma de suas preferidas – foi o nome que dei ao projeto biográfico que se iniciava. Ele nascia com as características da cor e revelava intensidade, emoção, preferência. Gestado o primeiro insight – escrever –, busquei papel e fiz os primeiros registros. Os bilhetinhos que ainda guardo sustentaram o primeiro grupo de textos, todos escritos na primeira e segunda semana de agosto. A história peculiar – a de João descoberto artista ainda na adolescência a partir de um teste psicológico na empresa na qual trabalhava – atiçou meu espírito aventureiro e desencadeou a certeza de que sim, eu encontraria as longevas pelotenses e as apresentaria a João.
Depois de escritos os primeiros textos e tornando-os uma coleção de cartões postais com o intuito de presenteá-lo no aniversário, decidi mandar, pelo correio, Longevas Pelotenses ao escultor. Chefe que havia sido dos Correios em Bento Gonçalves, nunca imaginei que demoraria a receber. Por um tempo que considerei longo demais, nem sinal de João. Até que, em uma tarde, o telefone tocou.
Era João.
- Cristina? Estou com o Longevas Pelotenses nas mãos...
E retomamos a emoção da escrita e da leitura, os dois com a voz embargada, sabedores do vínculo.
Quando nos vimos novamente, na exposição festa de aniversário, Longevas Pelotenses se encontrava nas paredes da Galeria: era uma das obras de arte expostas lá e pude então, ver o impacto que meu texto havia causado nesse italiano que não tem vergonha de chorar. Nesse dia, li, em voz alta e para João, outro de meus textos: Mãos. Nele, reconheço, consegui produzir som através das palavras escritas, como ele mesmo faz quando bate-escuta-bate nas rochas.
Criado o laço, aparadas as distâncias, Bento Gonçalves e o atelier de João, localizado nos Caminhos de Pedra, ficou pertinho. Outras vezes nos vimos, muitas histórias passei a ouvir. Parte significativa delas, a respeito da infância do João. O projeto, assim, foi se delineando.
Também eu tinha uma rocha diante de mim.
Também eu tive que bater, ouvir, quebrar, selecionar, descartar, conter, lixar, polir, mostrar.
Um personagem e um sujeito.
O personagem – o escultor João Bez Batti - é bem mais que os textos em que memórias há.
O sujeito – um longevo brasileiro nascido em Volta do Freitas e amadurecido como os seixos – é mais que o personagem.
O escritor? O escritor acorda o personagem, como João, que acorda as pedras...
Para acesar o livro digital, escreva para cris@ufpel.thce.br e solicite.

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Leituras no Casarão

Outubro literário na Sala de Leitura Erico Verissimo

Criada para promover a leitura literária no espaço acadêmico, a Sala de Leitura Erico Verissimo abre o mês de outubro em novo local: um espaço lúdico no Casarão 8.
Em comemoração ao mês da criança, integra-se a outras atividades da Primavera dos Museus, oferecendo leitura literária a crianças e suas escolas.
Durante todo o mês de outubro, a sala estará ambientada para receber crianças acompanhadas por seus professores e familiares. Para agendar sua escola, é só ligar para o telefone da Sala de Leitura.
A Fada Madrinha, o Senhor Sabetuuuudo, a Branca de Neve e a Chapeuzinho Vermelho estarão esperando no local, para ler para as crianças. O Príncipe Sapo, a Sininho, a Bruxa Meméia e a Girafalda Bichófila já escolheram seus livros prediletos e não vão perder a oportunidade de mostrar quem sabe ler melhor.
Neste mês, também, todas as leituras para o grupo de crianças do CRAS serão realizadas no Casarão 8, às quartas-feiras, das 9 às 11 horas.
Veja o cronograma e participe!

Cronograma de Outubro
Dia e hora
Programa
Onde
30/09 - Sábado
16-17 horas
Leituras Literárias no Primavera dos Museus
Sala de Leitura
Casarão 8
05/10
9-11 horas
Leituras Literárias no Outubro literário
Sala de Leitura
Casarão 8
06/10
15-18 horas
Leituras Literárias no Outubro literário
Sala de Leitura
Casarão 8
12/10
9-11 horas
Leituras Literárias no Outubro literário
Sala de Leitura
Casarão 8
13/10
15-18 horas
Leituras Literárias no Outubro literário
Sala de Leitura
Casarão 8
19/10
9-11 horas
Leituras Literárias no Outubro literário
Sala de Leitura
Casarão 8
20/10
15-18 horas
Leituras Literárias no Outubro literário
Sala de Leitura
Casarão 8
25/10
9-11 horas
Leituras Literárias no Outubro literário
Sala de Leitura
Casarão 8
26/10
15-18 horas
Leituras Literárias no Outubro literário
Sala de Leitura
Casarão 8



terça-feira, 29 de agosto de 2017

"A professora, o aluno e os ovos" te representa?

Instigada por uma leitura – A professora, o aluno e os ovos – que realizei recentemente, fiquei curiosa a respeito de sua repercussão entre professores. Decidi enviar o texto a minha rede de WhatsApp e perguntar se a posição defendida pela desembargadora representava a cada um[2]. A seguir, o artigo da desembargadora. Logo depois, as respostas que obtive.

A professora, o aluno e os ovos
Que as condutas antiéticas, violentas e desprezíveis nos mais amplos quadrantes lamentavelmente permearam nossa sociedade, todos sabemos. Nesse contexto, o episódio do aluno que agrediu fisicamente a professora que prestigiara, elogiara ou incitara, em redes sociais, o ato de jogar ovos em políticos ganhou visibilidade nacional, justamente porque atingiu o mais venerável reduto, depois da família, que ainda deveria servir de resistência às degradantes posturas ao início apontadas. O presente é para falar do mestre. Aquele que ensina. O detentor de uma das mais nobres tarefas e que sobre o qual emociona inclusive falar. A sagrada figura do professor, adstringindo-me especialmente àquele que exerce o mister como meio e razão de vida, em salas de aula, vê-se hoje bastante vilipendiada e desacatada, fruto, repito, da ruína de preceitos básicos de ética que penetraram e envolveram a sociedade. Daí porque, hoje, mais do que nunca, o professor há de manter uma postura altiva, respeitável, superior e, para isso, dar exemplo aos discípulos até no que possa parecer filigrana. Logo, o simples fato de uma educadora, investida na função, prestigiar que se joguem ovos em quem quer que seja abre espaço e dá exemplo à incivilidade. E a incivilidade é o início do caos, é a falta de limite, de controle, de argumento; é a falta de respeito. Jamais podemos dar oportunidade a que incivilidades se criem ou propaguem, quanto mais elogiá-las. Digo isso, porque o fato lamentável que enseja o presente comentário se constitui na falência da relação professor/aluno; mestre/discípulo. De se lembrar que um professor em sala de aula, principalmente de escola pública, está diante da mais absoluta diversidade de seres em desenvolvimento — carentes, abonados, cândidos, violentos, infratores, abandonados, equilibrados, revoltados, felizes ou infelizes. Em meio a tal contexto de profundas diferenças e origens, jamais pode o mestre demonstrar, mesmo que pense, aprovação para com qualquer incivilidade, pois ao atirar um ovo, em meio à desordem, pode receber uma pedra. O professor, principalmente, porque mestre, não se pode descuidar de tudo isso, relevando-se que a instantaneidade e acessibilidade generalizada proporcionadas pelas redes sociais, onde todos são "amigos", amalgamou nossas manifestações enquanto simples cidadãos com as que devemos ter enquanto profissionais. Assim, seja qual for a opinião emanada de um educador, deve ser ela, sempre, cuidadosamente entremeada e revestida por mensagens de tolerância, amor e respeito ao próximo (Jaccottet, 28/08/2017).

As opiniões recebidas
As opiniões, na íntegra estão a seguir. Foram inseridas neste rol à medida que foram chegando, via WhatsApp, como retorno a minha indagação, que foi assim escrita: "Bom dia. Li esta matéria no Jornal Zero hora. Trata de nossa profissão. Ela te representa? Obrigada por opinar".
O intuito de minha pesquisa informal foi provocar colegas, professores que atuam em escolas e estudantes de Pedagogia a se posicionar a partir do olhar do outro, um cidadão que observa o exercício de nossa profissão e opina, publicamente, escrevendo um artigo em um veículo de grande abrangência.  

1ª opinião: Minha opinião? Eu não entendi o tom dela. Não sei se está afirmando ou sendo irônica.
2ª opinião: Difícil. Complexo. Existem pontos a serem considerados. De alguma maneira, somos exemplos. Entretanto, parece-me uma defesa ao posicionamento 'neutro', sem ideologia, do professor. Sou totalmente contrária. Sou professora, ser pensante, com ideias próprias e não considero como obrigação minha, manter-me isenta ou neutra. Costumo expor meus pensamentos, sim.  Quanto à “ovada”, considero que o tal deputado é merecedor, por todas as atrocidades que defende. Afinal, o que é um ovo para quem defende estupro e tortura? Existe diferença entre um ovo e uma pedra. Aí entra a minha função de educadora: demonstrar que o ovo tem um significado; uma pedra, cadeira ou soco, resultados bem distintos.
3ª opinião: Não.
4ª opinião: Também defendo a idéia de que professor jamais pode demonstrar atitudes de falta com a verdade, ação correta, violência... Antes, sim, desenvolver entre os alunos e onde estiver estimular o amor e a paz, valores que tanto fazem falta a humanidade, hoje e sempre.
5ª opinião: A opinião da autora é de não elogiarmos quando alguém faz algo errado, tipo jogar ovo nos políticos. Que não podemos incentivar a incivilidade. Concordo com ela.
6ª opinião: Bom dia! Muito bom o texto! Representa-me, sim, e concordo com a autora. Professor tem que ensinar não só com a palavra, mas com o exemplo. Diálogo, respeito sempre.
7ª opinião: É verdade e me representa. Deus livre o professor de cometer alguma atrocidade! Este será julgado na hora, sendo que, com algumas outras profissões, suas atitudes até podem ser desculpadas e não se faz nada contra. O professor, não, deve se manter na linha se não quiser que as coisas e pessoas virem contra ele.
8ª opinião: Sim, me representa!
9ª opinião: A nossa sociedade está cada dia mais decadente, mesmo. O mestre deveria ser um exemplo para todos e além do mais, deveria ser o mais bem pago de todas as profissões.
10ª opinião: Essa matéria, essa coluna e essa pessoa não me representam de forma alguma. Difundir a ideia de que precisamos nos cuidar para mantermos autoridade é o fim! Desde a minha formação inicial venho trabalhando com a diversidade e com a periferia e nunca tive um problema com agressividade. E sabes? Levo para a sala de aula vida, diálogo, posição política e respeito. Respeito os meus alunos, trabalho com elevação de auto-estima e da capacidade intelectual. Difundir a ideia de que devemos esconder as nossas posturas nos tira o HUMANO. E, sem isso, não penso ser viável acontecer aprendizado!
11ª opinião: Sim, me representa.  
12ª opinião: Horrível e não me representa! Tendenciosa como sempre são as reportagens desse meio. Quer dizer que jogar ovos num ser desprezível como o Bolsonaro justifica um soco de um homem numa mulher é nojento! É completamente desproporcional as "agressões" e má intenção querer compará-las.
13ª opinião: Gostei do texto, concordo que o professor é tipo um espelho para seus alunos e para a sociedade. Por isso, deve ter cuidado com as suas atitudes. Por ser mestre, todos estão de olho. Toda certeza: esse texto me representante!
14ª opinião: Interessante...
15ª opinião: Representa um desrespeito com a classe, que é essencial.
16ª opinião: Sim. Respeito ao próximo sempre.
17ª opinião: É lamentável e um absurdo que isto tenha acontecido. A isso não chamamos de professor, mestre. Não, não, não! Isso não é ser professor. Por nada não foi agredida. Onde está a vida, o exemplo, o que estudou? Não nos representa, não somos isso.
18ª opinião: A docente não me representa. Deu mau exemplo incitando em redes sociais, o ato de jogar ovos em políticos. Existem outras formas de mostrar que estamos insatisfeitos. Não desta forma. Sou contrária a qualquer tipo de agressão. Mas nada justifica o que este aluno fez. Errou! Tem que ser tratado. Se não me engano, era a primeira aula que ela dava nesta turma. Poderia ter conquistado aos poucos. Às vezes, uma palavra de carinho, um elogio transforma o ódio em amor.
19ª opinião: Com certeza, me representa!
20ª opinião: Li atentamente o texto que nos diz respeito. A gaúcha aborda com competência a seriedade que envolve o  to de educar que, por sua vez, segue sua trajetória em consonância com as concepções de mundo construídas na sua formação. Ao aprovar o arremesso de ovos no Bolssonaro, a professora abriu espaço para diversas interpretações. Foi vista como incivilidade  pela autora do artigo.
21ª opinião: Não diria que me representa, pois não concordo com a matéria na sua íntegra. Mas concordo que nós, educadores, não devemos incitar qualquer forma de agressão aos movimentos ou manifestos. Realmente, jogar ovos...
22ª opinião: Não. Como também nenhum político.
23ª opinião: Concordo com este artigo plenamente. Como alguém que passa a formação pode incitar a violência em redes sociais? Jamais! Somos formadores de opiniões, não incitadores.
24ª opinião: A reflexão da desembargadora me levou a pensar em nosso sistema jurídico. Ele escalona e pune de acordo com a violência de atitudes. Se tanto os que receberam ovos como os que recebem socos se postam diante da justiça exigindo punição a seus agressores, provavelmente as penas sejam diferenciadas. Será que é por isso que pensamos que ovos são menos violência que socos?
25ª opinião: Não me representa! Oartigo põe em discussão uma boa causa -  a não violência. Mas é superficial - muito trabalha efeitos e não dá centralidade às causas. Mas é uma posição. E talvez eu não tenha uma argumentação sólida para isso. De todo modo, a exposição da problemática faz bem.

26º opinião: Para mim, é o mesmo que dizer que a mulher se veste com uma roupa curta, quer ser estuprada ou que quem anda de iPhone na rua, quer se roubado. É culpabilizar a vítima.

O professor modelo
Acredito no professor modelo.
Sempre me manifesto assim diante de meus alunos, na Universdade e em palestras e diálogos com professores nas escolas.
Professor, no meu entender, deve ser modelo de estudante – deve estudar, portanto.
Modelo de leitor – deve ler, sempre e muito. E ler para os alunos, para indicar a eles o que foi produzido de melhor: na literatura, na área de estudos, na pesquisa científica, nas experiências bem sucedidas.
Modelo de generosidade – deve publicizar o que conhece, sempre. O saber, especialmente na escola, representa a sociedade e o que ela respeita como necessário, indispensável, relevante. Saber e dividir o saber é ter e dividir o poder. Publicizar o saber é dever da escola. É para isso que ela foi criada e não tem sentido sem esse exercício.
Modelo de gentileza: deve observar e buscar modos de viver em grupo, de aprender com os demais, de conhecer o que o outro conhece e, desse modo, tornar os processos de aprendizagem mais e mais qualitativos.

A profissão
Professor é a única profissão que, ao ser exercida, produz aquisições profundas nas mentes e nos corações de nossos semelhantes, desde pequenos. É a única profissão obrigatória em qualquer cidade do país, em qualquer localidade, longíncua que seja de onde estamos agora. É o único profissional que todos, indiscriminadamente, conhecem ou vão conhecer, entrar em contato, muitas vezes, ficar à mercê. 
O professor e a educação no Brasil, atualmente, são regidos por um grupo de leis, parâmetros, referenciais, planos, currículos (entre eles, a LDB, PCN, RCNEI, PDE, BNCC). Assim, configura-se na profissão mais regrada, mais vigiada, mais prescrita, mais legalizada entre as demais. E isso, essa profusão de parâmetros e leis, não é gratuito.
Somos regrados pelo estado pois o representamos. O estado brasileiro, seu ideal grafado na constituição, é representado em currículos, mas não só. Todas as modalidade de ensino ofertadas e reconhecidas no país são gestionadas por projetos que se expressam em programas para a escola e seus 200 dias letivos. E também, a formação dos professores - o que devem saber, qual o nível de escolaridade que devem ter e como acessam os sistemas de ensino - tudo é regrado, definido, prescrito.
Nós professores, representamos o ideal de país, ou seja, o tipo de cidadão que o Brasil almeja, pois é pelas escolhas do professor que passam a ciência e a tecnologia que é disponibilizada para a população em geral.
Somos poderosos e, por ter esse poder nas mãos, estamos no palco, sob todas as luzes, todos os holofotes.  

O professor: um maduro da espécie?
No meu entender, o professor, quando ama e respeita a sua professoralidade, impulsiona profundamente as crianças a serem mais e melhores e é o mestre que pode mediar o gosto e a habilidade para que surja o engenherio, a fisioterapeuta, o filósofo, a pedagoga.
Obrigatório desde os quatro anos, o ensino em escolas tensiona sujeitos que, diferentes, se encontram para conhecer e preservar a língua nacional, aprender a ler o mundo e a palavra, inventar um contidiano repleto de relações de curiosidade, aprofundamento, estranhamento e reescritura.
Relações humanas e profissionais.
Relações de saberes e de poderes.
Relações geracionais e culturais.
Nelas, os maduros da espécie, representados pelo professor, intentam dizer aos filhotes que, um dia, ao redor do fogo, partilhávamos o alimento, a memória, a  curisidade. E aprendíamos.

Finalizando...
Agradeço a todos que contribuíram com a pesquisa informal. Acredito que assim, dialogando e conhecendo o que os demais pensam, poderemos chegar próximo do ideal que é dialogar, se colocar no lugar do outro, rever, repensar, recuar, avançar. E partilhar a humanidade.
A metodologia da pesquisa incluiu publicar todas as opiniões.
Por fidedignidade.
Por respeito a quem escreve.
Por retribuição a quem se organiza para pensar, refletir e se expor.
OBRIGADA!



[1] Assinada pela Desembargadora do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, Laura Louzada Jaccottet, o artigo foi publicado segunda feira, dia 28 de agosto de 2017. Nele, o e-mail da Desembargadora: lauraljac@gmail.com

sábado, 19 de agosto de 2017

Contar ou transmitir a partir da experiência não é ler!

Cristina Maria Rosa


Ler e contar são duas formas de mediar o mistério, duas importantes práticas de alfabetização literária que, na maioria dos casos, são usadas indiscriminadamente. No entanto, há diferenças entre ler e contar.

Contar é antropológico, ancestral. Contar é acessar um repertório individual e coletivo que faz sentido a determinada família ou mesmo sociedade. É narrar a experiência, é “transmitir a partir da experiência[1]”. Contar é propagar uma história, rememorar um fazer, um ocorrido, uma fatalidade. É experimentar o retorno a emoções já vividas, que se presentificam nas palavras e em silêncios. Contar é tornar perene no tempo “a partir do vislumbre de um narrador qualificado” o “sentido do que lhe está sendo transmitido”. Contar é repassar adiante e, de acordo com Silveira (2011) “assim como a própria narrativa”, contar não é um ato “desinteressado”, ingênuo, espontâneo.
Contar também é selecionar eventos, formatos e epílogos que nem sempre estão escritos e produzi-los oralmente. Neste fazer, o contador circunscreve um grupo de palavras, expressões e sentimentos integrantes de seu repertório e oferece, simultaneamente, suas escolhas éticas, morais, artísticas. Contar, então, é mobilizar um repertório particular: de temas, personagens, enredos, tempos e modos de falar e de reapresentar o passado que, de algum modo, vai se tornando o presente de quem ouve.
Ao contar, mesmo que o narrador acione textos que possuem a característica da longevidade, universalizados pelo impacto e repercussão – e Le petit Chaperon Rouge, de Charles Perrault, é um bom exemplo – a forma de narrar é própria e, para tal, concorre um léxico pessoal, restrito à experiência leitora e narradora do sujeito, além de suas filiações históricas, políticas, filosóficas e literárias. Contar um episódio, parte de uma empreitada, pode ser uma aventura antropológica repleta de aberturas para a construção de sentidos estéticos e literários. Mas nem sempre. Pode ser também e, apenas, uma subtração e/ou higienização de um texto originalmente bruto, rico, autoral.
As versões orais de narrativas clássicas nas quais há abrandamentos de temas e desfechos revelam as escolhas morais e éticas dos adultos que decidem o tipo de contato que a criança terá com a escrita original. Desse modo, interditam o leitor na vivência plena de um pacto com o autor. Versões abrandadas, com objetivo de atenuar ou mesmo postergar o contato com temas estruturadores da psique humana como a morte, a traição e o abandono, por exemplo, são encontradas em profusão, indicando uma indisposição ou incapacidade do adulto quanto ao tema, trama ou desfecho. Essas variantes aligeiradamente inventadas subestimam os ouvintes, omitem constructos literários, violam a obra, depreciam o trabalho do autor e relegam a criança a estruturas mais simples da língua, ignorando ou desdenhando sua capacidade de atribuir sentidos ao lido/fruído. O devaneio, a imaginação, a capacidade de criar, a inventividade, a fantasia são faculdades inerentes aos humanos que têm “necessidade de manifestar e dar corpo às suas capacidades inventivas”. Para Bartolomeu Campos de Queirós (2009):

Possibilitar aos mais jovens acesso ao texto literário é garantir a presença de tais elementos, que inauguram a vida, como essenciais para o seu crescimento. Nesse sentido é indispensável a presença da literatura em todos os espaços por onde circula a infância. Todas as atividades que têm a literatura como objeto central serão promovidas para fazer do País uma sociedade leitora.

Contar não é ler e ler é diferente de contar.
Ler é cultural, é reinventar a escrita, é assumir que a linguagem é uma “faculdade cognitiva exclusiva da espécie humana que permite a cada indivíduo representar e expressar simbolicamente sua experiência de vida” (BAGNO, 2014, p. 192). Como “seres muito particulares”, produzimos sentido “por meio de símbolos, sinais, signos, ícones”. A escrita é uma dessas formas de produzir sentido e pode ser conceituada como “um fenômeno social, uma forma de ação e de interação social”. Assim, “produzir um texto significa dizer algo a alguém, por algum motivo, de algum modo, em determinada situação” (FIAD & VAL, 2014, p. 264).
A produção de um texto, porém, exige um “leitor proficiente”, aquele que não só “decodifica as palavras que compõem o texto escrito”, mas, também, “constrói sentidos de acordo com as condições de funcionamento do gênero em foco”. Para tal, mobiliza “um conjunto de saberes sobre a língua”, representado por “outros textos, o gênero textual, o assunto focalizado, o autor do texto, o suporte e os modos de leitura”, de acordo com Da Mata (2014, p. 165).
A fruição de um texto demanda, também, um experiente da espécie que, ao exercer o ofício de mediador, “crie as condições para fazer com que seja possível que um livro e um leitor se encontrem”, em “rituais, momentos e atmosferas propícias” (REYES, 2014, p.213). Esta figura é preponderante para inserir novos e outros no processo de gostar de ler desde tenra infância, uma vez que os pequenos são inexperientes. Para Reyes (2014, p. 213):

Durante a primeira infância, quando a criança não lê sozinha, a leitura é um trabalho em parceria e o adulto é quem vai dando sentido a essas páginas que para o bebê não seriam nada, sem sua presença e sua voz. Por isso, os primeiros mediadores de leitura são os pais, as mães, os avós e os educadores da primeira infância e, paulatinamente, à medida que as crianças se aproximam da língua escrita, vão se somando outros professores, bibliotecários, livreiros e diversos adultos que acompanham a leitura das crianças.

Na leitura – prática letrada mais frequente em nossa vida social (Da Mata, 2014, p. 165) –, o leitor empresta sua voz e, através dela, os sons, alturas, tons, frequências e articulações para colorir, descobrir, adornar, esclarecer, incrementar, apurar, desenredar, duvidar, expor, declarar, revelar, desvelar, divulgar, manifestar, enfeixar, aprofundar, desvendar as tramas em palavras grafadas por outrem, o autor. Toma emprestado dele o invento – o livro e seus segredos – e se empresta ao ler. Torna-se instrumento encantado para apresentar o que o outro – o inventor – criou.
Assim, a leitura, diferente da contação de histórias, oportuniza o contato com o texto literário[2] que, apesar do tempo e do mediador, mantém-se inalterado, com o léxico, a estrutura textual e as escolhas poéticas, filosóficas, éticas – todas – do autor. Neste caso, é preservada a experiência estética com o texto produzido, única para cada sujeito leitor ou ouvinte. Nas palavras de Cunha (2014, p. 112-113):

[...] podemos entender a experiência estética literária como a soma da percepção/apreensão inicial de uma criação literária e das muitas reações (emocionais, intelectuais ou outras) que esta suscita (...). Tal produção literária é – ela também – uma experiência estética, cujo resultado seu criador quer fazer único e inconfundível, com marcas que ele gostaria que fossem percebidas pelo leitor como pegadas no caminho da leitura de sua obra. Assim, na descoberta dessas, (...) o leitor tem um papel de criação. (...) Isso torna a experiência com a leitura da obra literária algo tão rigorosamente pessoal para o leitor quanto foi a criação para seu autor. Por isso mesmo, é insubstituível a fruição surgida do contato direto (por audição, leitura ou até assistência da representação, no caso do teatro) com a obra literária: nenhuma resenha, nenhuma palavra de entusiasmo, nenhuma excelente ação de mediação que se faça necessária, para facilitar o encontro do leitor com a obra, pode dispensar seu corpo a corpo com o texto literário.

Ler é diferente de contar. Não é mais, nem menos. É diferente. Na escola, a criança – aprendiz da espécie humana que através da fala e pela escrita aprende a organizar o pensamento – acessa, com a audição de histórias lidas, contatos e aprimoramentos das relações com a cultura escrita, uma de nossas maiores conquistas antropológicas. Ler para os pequenos desde tenra infância, então, é inseri-los no que de melhor produzimos como “sapiens”: a escrita autoral ou, um modo particular de ver/sentir/narrar o mundo e, um bom mediador, dá nome a quem de direito: ao autor, a autoria; ao mediador, os sentimentos todos que encontrou ali e quer perpetuar, divulgar, evidenciar.



[1] No texto Experiência e Pobreza, o filósofo Walter Benjamin (1933), disserta sobre a perda da capacidade de contar histórias – e de, com elas, dar ensinamentos morais através do intercâmbio de experiências –, ocasionada pela dissolução dos vínculos familiares e pelo empobrecimento de experiências comunicáveis da população.
[2] “Modo muito singular de construir sentidos”, o contato com a linguagem literária oportuniza uma “intensidade” de interação com “a palavra que é só palavra” e uma experiência “libertária de ser e viver”, de acordo com Rildo Cosson (2014, p. 185). Para Cristina Álvares (2004, p. 1), a escrita literária tem três características fundamentais: “ela é coisa na/da linguagem, aquilo que na/da linguagem não é discurso, mas silêncio”, a escrita ou a leitura de um texto literário “é uma actividade que rompe (no sentido violento) o laço social” e, esta ruptura “tem um alcance e um valor sexuais”. “Prática cultural de natureza artística”, para Paulino (2014, p. 177), a leitura do texto literário se diferencia por oportunizar contato com “outros mundos, em que nascem seres diversos, com suas ações, pensamentos, emoções”.

Alfabeteando...

Olá, bem vindo!

Um "Alfabeto à parte" foi criado em setembro de 2008 e tem como objetivo discutir a leitura e a literatura na escola. Nele disponibilizo o que penso, estudos sobre documentos raros e meus contos, além de uma lista do que gosto de ler.

Em 2013 concluí pesquisa sobre o Abecedário Ilustrado Meu ABC, de Erico Verissimo, publicado pelas Oficinas Gráficas da Livraria do Globo em 1936. O lançamento do livro e sua repercussão estão no Blog. Alguns artigos sobre a pesquisa também. Leia e dê sua opinião.

A novidade, em 2015, foi a inauguração da Sala de Leitura Erico Verissimo, um sonho antigo que agora se realiza. Em 2016, o processo de restauro da Biblioteca na Escola Fernando Treptow, inaugurada em 25 de novembro.

Em 2017 estou produzindo a Biografia de João Bez Batti. Através de relatos pessoais nos quais a criançaque João foi é a personagem principal, recosntruo, com narrativas litetárias, seu descobrimento como escultor. Bilíngue (português e italiano) o livro tem data para ser lançado: 11/11/2017.

Abraço

Cristina