sábado, 19 de agosto de 2017

Contar ou transmitir a partir da experiência não é ler!

Cristina Maria Rosa[1]


Ler e contar são duas importantes formas de mediar o mistério, duas importantes práticas escolares de alfabetização literária indiscriminadamente.
No entanto, há diferenças entre ler e contar.
Contar é antropológico. Contar é ancestral. Contar é acessar um repertório individual e coletivo que faz sentido a determinada família ou mesmo sociedade. Contar é narrar a experiência, é transmitir “a partir da experiência”. Contar é narrar uma história, rememorar um fazer. É experimentar o retorno a “certas emoções antigas e presentes”. Contar é tornar perene no tempo “a partir do vislumbre de um narrador qualificado” o “sentido do que lhe está sendo transmitido”. Contar é repassar adiante. Contar, por fim e de acordo com Silveira (2011) “assim como a própria narrativa” não é um ato “desinteressado”, ingênuo, espontâneo.
Contar é a selecionar eventos, formatos e epílogos que nem sempre estão escritos. É a circunscrição de um grupo de palavras, expressões e sentimentos que dependem dos disponíveis no repertório pessoal do contador, além de suas escolhas morais, éticas, artísticas.
Contar é requerer e acionar um repertório particular: de temas, personagens, enredos, tempos e modos de falar e rememorar. Mesmo que o contador se utilize de textos longevos, universalizados pelo impacto e repercussão – e Le petit chaperon rouge é o melhor exemplo - a forma de narrar é própria e para tal concorre um léxico pessoal, restrito à experiência leitora e narradora do sujeito, além de suas filiações históricas, políticas, filosóficas e literárias.
Contar, então, pode ser uma aventura antropológica repleta de aberturas para a construção de sentidos estéticos e literários. Mas não só. Pode ser apenas uma subtração e/ou higienização de um texto originalmente rico, bruto, autoral.
E o que é ler?
Ler é diferente.
Ler é cultural. Ler é reinventar a escrita. Ler é assumir que a linguagem é uma “faculdade cognitiva exclusiva da espécie humana que permite a cada indivíduo representar e expressar simbolicamente sua experiência de vida, assim como adquirir, processar, produzir e transmitir conhecimento” (BAGNO, 2014).
Como “seres muito particulares”, produzimos sentido “por meio de símbolos, sinais, signos, ícones”. A escrita é uma dessas formas de produzir sentido e pode ser conceituada como “um fenômeno social, uma forma de ação e de interação social”. Assim, “produzir um texto significa dizer algo a alguém, por algum motivo, de algum modo, em determinada situação” (FIAD & VAL, 2014). Para Bagno (2014):

“Nenhum gesto humano é neutro, ingênuo, vazio de sentido: muito pelo contrário, ele é sempre carregado de sentido, nos mais variados graus, e cabe justamente à nossa capacidade de linguagem interpretar o sentido implicado em cada manifestação dos outros membros da nossa espécie”.

A produção de um texto, porém, exige um “leitor proficiente”, aquele que não só “decodifica as palavras que compõem o texto escrito”, mas, também, “constrói sentidos de acordo com as condições de funcionamento do gênero em foco”. Para tal, mobiliza “um conjunto de saberes sobre a língua”, representado por “outros textos, o gênero textual, o assunto focalizado, o autor do texto, o suporte e os modos de leitura”, de acordo com Da Mata (2014).
A produção de um texto demanda ainda, um “mediador", uma pessoa que estende “pontes entre os livros e os leitores”. Medidores selecionam “livros que fascinam” e, assim, transformam pessoas em leitores. Para Reyes (2014), o mediador é necessário desde tenra infância. Em suas palavras:

“Durante a primeira infância, quando a criança não lê sozinha, a leitura é um trabalho em parceria e o adulto é quem vai dando sentido a essas páginas que para o bebê não seriam nada, sem sua presença e sua voz. Por isso, os primeiros mediadores de leitura são os pais, as mães, os avós e os educadores da primeira infância e, paulatinamente, à medida que as crianças se aproximam da língua escrita, vão se somando outros professores, bibliotecários, livreiros e diversos adultos que acompanham a leitura das crianças” (REYES, 2014, p. 213-214).

Na leitura, empresto minha voz - tons, suspiros, silêncios, entonação, dor e alegria - para colorir, discernir, enfeixar, aprofundar, desvendar as palavras escritas por outrem, o autor. Empresto dele o invento e me empresto para mediar.
Assim, a leitura, diferente da contação de histórias, oportuniza o contato com o texto literário que, apesar do tempo e do mediador, mantém-se inalterado, com o léxico, a estrutura textual e as escolhas poéticas do autor.
Um bom mediador dá nome a quem de direito: ao autor, a autoria; ao mediador, os sentimentos todos que encontrou ali e quer perpetuar, divulgar, evidenciar.

Concluindo: Ler é diferente de contar.
Ler é diferente de contar. Não é mais nem menos.
É diferente.
Na escola, a criança – aprendiz da espécie humana que através da fala e pela escrita aprende a organizar o pensamento – acessa, com a audição de histórias lidas, contato e aprimoramento das relações com a cultura escrita, uma de nossas maiores conquistas antropológicas.
Ler para os pequenos desde tenra infância, então, é inseri-los no que de melhor produzimos como “sapiens”: a escrita autoral ou, um modo particular de ver/sentir/narrar o mundo.

Sugestões de leitura:
BAGNO, Marcos. Linguagem. Glossário CEALE. Disponível em: http://ceale.fae.ufmg.br/app/webroot/glossarioceale/verbetes/linguagem
BENJAMIN, Walter. Obras escolhidas. Trad. Sergio Paulo Rouanet. 10. reimpr. São Paulo: Brasiliense, 1996. v. 1: magia e técnica, arte e política.
DA MATA, M. Leitor Proficiente. Glossário CEALE. Disponível em: http://ceale.fae.ufmg.br/app/webroot/glossarioceale/verbetes/leitor-proficiente
FIAD, R. & VAL, M. Produção de textos. Glossário CEALE. Disponível em: http://ceale.fae.ufmg.br/app/webroot/glossarioceale/verbetes/producao-de-textos
REYES, Y. 2014. Mediadores de Leitura. Tradução de Elizabeth Guzzo de Almeida. Glossário CEALE. Disponível em: http://ceale.fae.ufmg.br/app/webroot/glossarioceale/verbetes/mediadores-de-leitura
SILVEIRA, N. Saber cuidar, saber contar: ensaios de antropologia e saúde popular. Resenha. Revista Tempus Actas de Saúde Coletiva. Disponível em:  file:///C:/Documents%20and%20Settings/Administrador/Meus%20documentos/Downloads/982-2076-1-PB.pdf




[1] Pedagoga, Mestre e Doutora em Educação, Pós-Doutora em Estudos Literários na Educação (UFMG, 2011) coordena o GELL – Grupo de Estudos em Leitura Literária; é Líder do GPELHL - Grupo de Pesquisa Escritas, Leitores e História da Leitura (CNPq, 2009) e Coordena o Núcleo Sul em Prosa e Verso, que integra o movimento Brasil Literário.

domingo, 13 de agosto de 2017

Bolas de Berlim e Carol: dois continhos

Cristina Rosa

Bolas de Berlim
Em três quintais e com avó de dois nomes, viveu o menino.
Cachorro não tinha, e quando ganhou, sem querer e em devaneio, pisou em cima. Depois, só a avó Nádia para consolar. E fazer uma cova e uma cruz. Marcar o lugar para não mais pisar.
No quintal. Ou melhor, em um dos quintais.
Da casa azul celeste.
Pertinho, durante toda a infância, bisavó, avó e avô, pai, mão e irmã.
A dos cachorros muitos.
O seu, aquele que morreu cedo demais, filhote ainda, o único lembrado em toda a infância. Como seu.
A irmã? Muitos.
E de nomes originais como Laika...
Lembra também de gibis e de fotonovelas.
Mas lembra mais da casa azul celeste, com porão e tudo. Nele, garrafas, aranhas e suas teias, segredos e um friozinho...
 De cheiros não lembrou. Mas sabores e sons, sim.
Sabores? Especialmente os restos de tudo em um inventado prato, à noite, para o jantar. A mistura, a cada dia de um jeito, produziu sua mais profunda noção de culinária. Hoje, adulto, perambula pelas ruas de Porto Alegre em busca de quem a imite. Inútil. Os restaurantes, todos, fazem de tudo para negar sua infância.
E os sons?
De cantigas de ninar a língua dos adultos, lembra de poder ficar só, em seu mundo, inventando uma presença e uma distância.
Presença por saber que a cantiga de ninar entoada pela avó Nádia em polonês era para os pequenos. Como ele.
A distância, quase ausência, quando os adultos resolviam adultar – que é uma maneira de deixar de ser criança – não escolhia, usufruía. Bisavó, avó e avô, pai e mãe, todos apartados por sons irreconhecíveis, palavras que não faziam sentido para o menino, abriam espaço para a infância acontecer. E ela aconteceu.
Mas de tudo, de especial, as Bolas de Berlim.
Sem recheio.
Sonhos, esses recheados com doce de leite ou goiabada, em Portugal são chamados de Bolas de Berlim. O menino não gostava. Do doce de leite ou da goiabada.
A avó Nádia?
Para o menino, só para ele, um cestinho repleto.
Fiquei até imaginando, hoje, quando soube.
Bolas de Berlim sem recheio.
Só para o menino.
Avó Nádia.
Quando pensa nela, a sua infância, o menino pensa em coisa boa.
Hoje pai de dois meninos, lembra da avó. A polonesa Nádia.
E das suas canções.
As de ninar.
Mas sabe: infância é ter um cesto de Bolas de Berlim. Sem recheio.


Carol
Na família de três meninas, era a do meio. A família mesmo era de cinco: pai, mãe e três gurias. Ela, a do meio[1].
Bonitinha, olhos claros, nem sei bem se verdes ou azuis. E bem magrinha.
Na escola foi bem cedo. Porque a mãe trabalhava fora, no banco, com horários esquisitos.
Chorava.
Mas logo em seguida, aprendeu.
A rezar. E aprontar.
Como era lindinha, com cara de inocente, as freiras sempre perdoavam.
Ela tinha desenvolvido uma técnica que era mais ou menos assim: aprontava, as freiras descobriam, ela ficava esperando. Quando elas chegavam, dedo em riste, armava as mãozinhas e fingia rezar. Dizia baixinho:
- Jesus me ajude, Jesus me ajude...
As freiras então, percebiam que ela acreditava em Deus, que ela recorria a Jesus, Maria ou mesmo a algum santo. E perdoavam.
A estratégia tinha um porém: o ceticismo da madre, a irmã mais poderosa do Colégio. Ela, a madre, sabia que aquela menininha loirinha, magrinha, bonitinha, de lindos olhos claros, era medonha!
A madre, no entanto, era muito ocupada e raras vezes tinham tempo de andar pelos corredores. Resultado: pouquíssimas vezes “pegou” a Carol. Que não era boba nem nada e tinha uma estratégia só para a madre. Querem saber? Pois conto.
Quando ela percebia que a madre estava se aproximando, sua reza era:
- São José me socorra, São José me socorra...
Por que funcionava? A madre era devota de São José e não resistia.
Assim a Carol cresceu. Aprontando e rezando.
As freiras?
Perdoando.
Inteligente, passou de cara no vestibular. Em vários.
Apesar do pai que queria Direito, foi estudar para ser professora.
Estudou. Estudou muito. Muito mesmo. E virou professora.
De crianças.
Loirinhas e moreninhas, bonitinhas todas, magrinhas e também gordinhas. Algumas de olhos claros. Algumas que nem sabiam rezar. Crianças que gostavam, adoravam, aprontar. Se a Carol pegava?
Sempre.
Mas perdoava!

sábado, 12 de agosto de 2017

Problemas da fala na criança: uma entrevista...


Lendo uma entrevista intitulada Problemas da fala na criança, realizada pelo mèdico Drauzio Varela com Rejane Rubino, decidi compartilhar.
Rejane é fonoaudióloga e professora no Curso de Fonoaudiologia na PUS/SP. A entrevista foi publicada em 19/03/2012 e está disponível em: http://drauziovarella.com.br/crianca-2/problemas-da-fala-na-crianca/

PROBLEMAS DA FALA NA CRIANÇA
Entrevista com Rejane Rubino.
Por Dráuzio Varela

Os pais olham os filhos sempre com muito orgulho. Na maioria das vezes, acham que eles têm desenvolvimento mais rápido e são mais espertos do que o das outras crianças. Mas, quando o filho apresenta alguma dificuldade para falar ou desenvolve essa habilidade mais lentamente, ficam ansiosos. Se essa ansiedade não é boa para eles, é péssima para a criança que aí, sim, poderá apresentar problemas em relação à fala.
O ser humano demora alguns anos para dominar perfeitamente o mecanismo da fala. Alguns o fazem mais depressa; outros, mais devagar. Não existe data precisa para determinar a normalidade desse processo que envolve uma série de aspectos orgânicos e psíquicos. Qualquer dúvida que surja a respeito do desenvolvimento da fala na criança deve ser esclarecida para evitar o agravamento da situação.

DESENVOLVIMENTO NORMAL DA FALA
1.      Qual é o desenvolvimento normal da fala na criança, das primeiras sílabas até a formação de frases completas?
Em termos de tempo, existe uma variabilidade muito grande. Aquilo que se considera normal não pode ser demarcado por um ponto fixo, mas por algo que comporta variação. Pesquisas mostram, por exemplo, que uma criança de 16 meses pode falar 150 palavras, enquanto outra da mesma idade não fala nenhuma palavra ainda, o que não significa que esta última apresente um problema de linguagem, porque a questão do tempo variável tem peso significativo.
É importante notar que inicialmente a criança produz vocalizações que são tomadas pela mãe e pelo pai como fala, quer dizer, a criança é interpretada como se fosse um falante antes mesmo de começar a falar.
2.      Que tipo de vocalizações são essas?
Essas vocalizações caracterizam-se pela emissão prolongada de uma vogal – aaaaa, por exemplo – ou até mesmo de sons que não serão produzidos mais tarde quando a criança for falante da língua. Depois, isso vai se transformando num balbucio que se caracteriza pela reduplicação de sílabas (babá, mamã), e que se aproxima da estrutura silábica da língua.

3.      Essas reduplicações costumam ocorrer em que faixa etária?
Elas estão presentes após os seis meses de idade. O importante é que o adulto vai tomá-las como palavras. Em geral, quando as mães dizem que o filho começou a falar porque nesse balbucio emitiu um som próximo de “mamã”, por exemplo, na verdade, ele ainda não está falando. No entanto, o fato de o adulto tomar aquilo como fala é fundamental para que ele venha a falar. A criança depende dessa interpretação para tornar-se um falante ativo.

4.      Em que nível está a fala da criança com um ano aproximadamente?
A partir dessa fala interpretativa que pai e mãe fazem, a criança vai tomando alguns fragmentos que irão reaparecer em situações parecidas às que foram faladas pelos pais. Portanto, a primeira fala tem natureza bastante imitativa. A criança repete fragmentos ditos pelo adulto que continua interpretando sua fala. Então, ela fala “nenê” e o adulto completa: “Você viu que nenê bonito?”. Esse movimento de tomar aquele pedacinho de fala e colocá-lo no contexto da língua imprime caráter gramatical à fala da criança. Esse processo de aquisição de uma gramática estruturada leva uns quatro anos, embora varie de uma criança para outra.

INTERFERÊNCIA DA ANSIEDADE PATERNA
1.      Às vezes, os pais ficam aflitos porque a criança de um ano não fala e não sabem que isso pode fazer parte do desenvolvimento normal do filho, não é?
Os pais, às vezes, comparam um filho com o outro e concluem que o mais velho na mesma idade já falava, embora nem sempre entendessem o que dizia, enquanto o menor não fala nada. Costumo dizer, quando isso é motivo de grande preocupação, que eles devem ser orientados, porque essa ansiedade pode dificultar ainda mais o processo da fala infantil, na medida em que passa para a criança a imagem de que deveria estar fazendo alguma coisa que ainda não consegue fazer.
Na clínica, é importante avaliar o modo como os pais falam sobre esse atraso. Às vezes, eles estabelecem relações entre essa demora para falar (que pode nem ser uma demora de fato) com outras histórias da vida da criança e da história deles mesmos. É importante trabalhar para que a ansiedade da família se dissipe e, se realmente houver um problema, começar o tratamento precocemente.

ORIENTAÇÃO AOS PAIS E CRITÉRIOS DE DIAGNÓSTICO
1.      Que tipo de conselhos você dá aos pais ansiosos e que critérios estabelece para diagnosticar um real problema de linguagem?
Existem alguns fatores que precisam ser examinados. Muitas vezes a criança ainda não fala, mas mostra sinais de que a linguagem está se organizando dentro dela. Um exemplo é a maneira como ela brinca. Se não fala, mas pega uma boneca, coloca-a para dormir, tira-a da cama, finge que a alimenta e lhe dá banho, apesar do silêncio, a linguagem está presente. É como se houvesse uma espécie de narrativa, evidenciada por eventos encadeados. No entanto, se a criança não consegue estruturar uma brincadeira, pega um brinquedo e larga para pegar outro que também deixa de lado, os pais precisam ficar atentos a esse modo de reagir.
Outro fator a considerar é o efeito da fala do outro na criança. Se ela atende a fala de terceiros, não há motivo para maiores preocupações, o que não acontece quando reage como se nada do que ouvisse tocasse nela.
Há, então, elementos que se usam na avaliação de linguagem para diferenciar o atraso que requer atendimento da simples demora para falar, uma vez que é praticamente impossível fixar uma idade exata em que essa demora deixa de ser normal.

FALAR ERRADO
1.      E aquelas crianças que falam de um jeito que só as mães entendem?
Isso aponta para outro quadro que não é o atraso da linguagem. A troca de fonemas, por exemplo, que em Fonoaudiologia é chamada de desvio fonológico ou distúrbio articulatório, é um desses casos. Em vez de falar “carro” a criança fala “calo”; em vez de “vaca”, fala “faca”. Além das trocas, pode ocorrer também a omissão de sons.
Embora esteja estabelecido que em torno dos quatro anos de idade a criança deva estar com o sistema de sons da língua adquirido e estabilizado, existe certa margem de variação dentro dos limites da normalidade.
Há pais que trazem a criança com essa idade, preocupados porque ela fala errado a ponto de as pessoas de fora não entenderem o que diz.  Isso demanda análise cuidadosa para verificar que sons a criança não produz ou troca por outros a fim de determinar a necessidade de atendimento ou de esperar mais um pouco, pois ela está em fase final de aquisição da linguagem. Por exemplo: ela já fala razoavelmente bem todos os sons da língua com exceção do r duplo e dos encontros consonantais (fala “Basil” em vez de “Brasil”), em geral os últimos a serem adquiridos. Entretanto, mesmo antes dos quatro anos, pode ocorrer uma desorganização nos sistema de sons que merece o cuidado precoce do fonoaudiólogo.
2.      Você poderia dar um exemplo disso?
Há crianças que omitem sistematicamente os fonemas oclusivos velares, o /k/ de “cola” e o /g/ de “gola” e isso lhes causa incômodo e sofrimento. Lembro-me de que atendi uma menina cujo apelido era Cacá. Quando lhe perguntavam qual era seu nome, ela dizia A-á. As pessoas não entendiam, perguntavam de novo, ela repetia, mas não se fazia entender. A impossibilidade de dizer o próprio nome de maneira inteligível perturbava suas relações sociais. Num caso como esse, indica-se o atendimento mesmo antes dos quatro anos para evitar constrangimentos para a criança.
Ela se chamava Carolina e produzir o fonema /k/ fez uma enorme diferença em sua vida. O dia em que saiu da sessão falando Cacá, estava exultante. É através da fala que as pessoas se apresentam para o mundo. Não poder pronunciar corretamente o próprio nome é algo angustiante para a criança.

GAGUEIRA OU DISFLUÊNCIA
1.      Tenho a impressão de que existem menos crianças gagas atualmente. Estou errado?
Não saberia esclarecer a questão da frequência da gagueira, mas acho que é importante chamar atenção para o seguinte: certo grau de disfluência, ou gagueira, é normal na fala de todos nós e, muitas vezes, nem nos damos conta dele. Em relação à infância, há uma disfluência da fala descrita como normal que faz parte do processo de aquisição da linguagem e tende a desaparecer sozinha. Isso está relacionado com o momento em que a criança passa a produzir as próprias sentenças e tem de escolher uma palavra depois da outra. É como se estivesse diante de várias portas e estancasse hesitando por qual caminho deverá seguir. Isso não é ruim e mostra um movimento da criança na própria aquisição da linguagem.
É claro que o grau de disfluência varia de criança para criança assim como varia a preocupação das famílias. É freqüente pais levarem o filho ainda pequeno que gagueja um pouco para uma consulta com o fonoaudiólogo porque temem que ele seja gago.
Diante de uma hesitação normal, é preciso alertar os pais de que, se a reação deles for tranqüila, o problema da criança vai sumir naturalmente. Por que é importante dizer isso? Porque o modo como os pais lidam com essa fala disfluente pode criar uma autoimagem de mau falante na criança e levá-la realmente à gagueira. Quando ela começa a falar e para e o adulto interfere com dicas sobre a melhor forma de falar sem gaguejar (“pense a sentença toda antes de falar”, “respire fundo”, “fale devagar”), está brecando a fala da criança e criando uma tensão que ainda não existia. Por isso, é importante que os pais busquem orientação sobre a melhor forma de lidar com a disfluência dos filhos para não agravar um quadro que pode passar naturalmente.
2.      A partir de que idade, os pais devem preocupar-se com a gagueira dos filhos?
Eu diria que a partir dos quatro anos, aproximando-se dos cinco, porque nesse momento a criança percebe a própria disfluência e a reação que provoca nos outros.
A gagueira normal tende a diminuir a partir dos três anos e não incomoda nem inibe a criança. O problema começa quando ela evita falar em certas situações ou com determinadas pessoas e se recusa a pronunciar algumas palavras. Isso mostra que está criando mecanismos na tentativa de escapar da disfluência, o que agrava mais ainda o problema.

AVALIAÇÃO DOS FONOAUDIÓLOGOS
1.      Em que os fonoaudiólogos se baseiam para dizer que determinado comportamento em relação à fala é normal ou merece cuidados?
Sempre se inicia por uma entrevista com os pais na qual colocam por que estão procurando atendimento e contam a história da criança. Num segundo momento, o contato é com a criança. Há profissionais que optam por aplicar testes. Eu prefiro sessões livres e lúdicas. O material é gravado, transcrito e analisado para levantar erros e dificuldades que possam estar cristalizados, sintomas de um distúrbio que a criança apresenta e precisa de ajuda para superar.
2.      Esses erros costumam ser sistemáticos ou aleatórios?
Os erros da fala costumam ser sistemáticos, não no sentido de que sejam fixos, mas no sentido de que mostram uma sistematicidade própria da linguagem. Por exemplo, a criança que fala “faca” em vez de “vaca” vai trocar todos os fonemas sonoros pelos surdos. Ela vai falar “cassa” em vez de “casa”, “cato” em vez de “gato”, etc., porque isso é uma lógica própria do sistema de sons da língua. Nesses casos, não se trabalha com os sons isoladamente, mas com a oposição de sons surdos e sonoros, mexendo com todo o sistema fonológico da criança.
3.      Isso pressupõe uma avaliação bem cuidadosa, não é?
Bem cuidadosa. É preciso descobrir que sons são trocados, qual a relação existente entre eles, além de analisar outros fatores para escolher o melhor caminho para trabalhar com aquela criança especificamente.

LÍNGUA PRESA, LÍNGUA SOLTA
1.      E os casos de língua presa, como são encaminhados?
Aquilo que popularmente chamamos de língua presa, nada tem a ver com língua presa mesmo. Recentemente, foi publicada uma reportagem dizendo que o presidente Lula não tem língua presa, tem língua solta. Na verdade, o que ele, assim como outras pessoas têm, é uma projeção frontal da língua, resultante da flacidez ou hipotonia desse órgão. O ceceio característico de sua fala é provocado pelo mau posicionamento da língua, quer dizer, ela não fica contida no espaço nem na posição correta para assegurar o tônus adequado.
A língua presa, em contrapartida, está afixada na boca por uma prega que limita seus movimentos. Um bebê com língua presa pode ter dificuldade para mamar no seio da mãe, por exemplo. Por isso, às vezes, é necessário fazer uma pequena incisão para liberar os movimentos linguais.

2.      Existem exercícios para reduzir os efeitos da hipotonia da língua?
Existem, sim. Gostaria de ressaltar que o desenvolvimento da musculatura orofacial utilizada para a fala tem relação bastante próxima e forte com funções como sucção, mastigação, deglutição e respiração. Assim, o ideal seria o bebê mamar no seio materno, mas nem sempre isso é possível. Alimentado na mamadeira, é importante que ele faça força para sugar. Muitas vezes, preocupadas com o ganho de peso da criança, as mães cortam o bico e o leite jorra sem o bebê fazer esforço algum. Mesmo que o bico seja ortodôntico e o furo pequenininho, sugar no peito demanda força muito maior.
O movimento de sucção propicia o crescimento adequado das estruturas ósseas, das mandíbulas e desenvolve o tônus adequado da musculatura que vai ser empregada na fala.
O mesmo princípio deve ser observado na passagem para a alimentação sólida. Não é raro receber no consultório uma criança a quem a mãe só oferece alimentos macios e pastosos, apesar de já ter idade para aceitar a alimentação dos adultos. Às vezes, as pessoas perguntam: “Quer dizer que o modo como meu filho come interfere no modo como ele fala?”. Sim, interfere e muito.
Outro cuidado importante é observar como a criança respira. Se respira pela boca, é bom levá-la ao otorrino para uma avaliação, já que a respiração bucal pode estar relacionada com a flacidez da musculatura e língua mal posicionada.

APRENDENDO MAIS DE UMA LÍNGUA
1.      Teoricamente, a criança nasce com uma circuitaria cerebral que permite aprender a falar qualquer uma das centenas de línguas que existem.
Elas são capazes de produzir quaisquer sons, mesmo aqueles inimagináveis depois que aprendemos a falar uma língua.
2.      E as crianças que têm pais de nacionalidades diferentes e aprendem duas línguas. Isso resulta em alguma desvantagem?
Existem estudos que estabelecem certa relação entre a possibilidade de problemas de linguagem e o bilinguismo, mas já vi dezenas de crianças crescendo em situação bilíngue sem nenhum problema.
Alguns pais optam por colocar os filhos em escolas estrangeiras, porque acham vantajoso aprender mais de uma língua. Se a criança, porém, manifesta algum distúrbio de linguagem tal atitude pode provocar embaraços, uma vez que ela se vê diante de uma língua estranha quando nem domina a língua materna.

Alfabeteando...

Olá, bem vindo!

Um "Alfabeto à parte" foi criado em setembro de 2008 e tem como objetivo discutir a leitura e a literatura na escola. Nele disponibilizo o que penso, estudos sobre documentos raros e meus contos, além de uma lista do que gosto de ler.

Em 2013 concluí pesquisa sobre o Abecedário Ilustrado Meu ABC, de Erico Verissimo, publicado pelas Oficinas Gráficas da Livraria do Globo em 1936. O lançamento do livro e sua repercussão estão no Blog. Alguns artigos sobre a pesquisa também. Leia e dê sua opinião.

A novidade, em 2015, foi a inauguração da Sala de Leitura Erico Verissimo, um sonho antigo que agora se realiza. Em 2016, o processo de restauro da Biblioteca na Escola Fernando Treptow, inaugurada em 25 de novembro.

Em 2017 estou produzindo a Biografia de João Bez Batti. Através de relatos pessoais nos quais a criançaque João foi é a personagem principal, recosntruo, com narrativas litetárias, seu descobrimento como escultor. Bilíngue (português e italiano) o livro tem data para ser lançado: 11/11/2017.

Abraço

Cristina