quinta-feira, 18 de maio de 2017

Cobras no laranjal: o conto revisitado

Em 2017, o conto Cobras no Laranjal – publicado pela primeira vez em 2009 – terá nova edição. Esgotada a primeira tiragem, foi escrito em homenagem à professora do filho da escritora, quando este estava no primeiro ano escolar.
O tema? A origem do nome da Praia do Laranjal.
Para a nova impressão, uma revisão foi necessária. Acesse aqui a versão 2017, que contou com os olhos atentos e a sensibilidade de Bitica Rosa, a quem a autora agradece profundamente.

Cobras no Laranjal
Cristina Maria Rosa

Todo mundo ficou falando do temporal que tinha dado, à noite, lá no sul do país. Em Pelotas, uma cidade banhada pela Lagoa dos Patos, parece que a coisa foi feia. O Jornal que noticiou o temporal não mencionou as cobras que o Menino encontrou.
 E levou para a escola.
O Menino tinha uma professora que amava bichos e adorava descobertas. A professora namorava um cara que era biólogo. Desses que são convidados para salvar pinguins e leões marinhos de desastres ecológicos como derramamento de óleo de cargueiros. O namorado havia ensinado às crianças que animais silvestres, como tartarugas e sabiás, não devem viver presos. E inventara um passeio às dunas do Laranjal, lugar propício para o nascimento de tartarugas. Ele desejava que os pequenos devolvessem à natureza bichinhos que alguns mantinham em cativeiro.
As crianças, pequenas ainda, de idade seis ou sete, choraram quando chegaram em casa e viram aquários vazios, gaiolas de portas abertas, a alfacinha ainda ali...
Quando publicou-se no jornal as fotos, quando beijos receberam de pai e mãe, quando avós orgulhosas telefonaram, as lágrimas foram de alegria: a natureza estava salva, um pedacinho, graças a todos eles!
Mas como eu ia dizendo, falou-se muito do temporal no sul.
Um temporal feio, com barulho intenso e lagoa revolta.
Nunca visto.
Nunca sentido.
Nunca imaginado!
Começou com um ventinho que, por mais forte a cada momento, se tornou ameaçador. E a lagoa, sempre tão boazinha, por muitos metros adentro rasa, de brincar crianças e de sossegar mães, cresceu...
 E veio vindo...
 Tomando conta da areia onde, ontem mesmo, corpos tomavam sol, pernas jogavam bola, cães rolavam em passeio e o chimarrão unia grupos.
A primeira vez que eu ouvi falar da Praia do Laranjal, pensei que fosse um lugar com muitas laranjas.
 Adivinhou! Não há nenhuma!
 Ou melhor, nas fruteiras da praia do laranjal tem de tudo, até laranjas. Do céu, de umbigo, laranja comum, de suco, da serra, “de fora” e “de São Paulo”.
Mas nenhuma colhida ali, em laranjeiras que já não há...
O nome, Laranjal, se deve às inúmeras laranjeiras, segundo eu fiquei sabendo, que havia.
Nas Quintas, um nome que davam às propriedades naquele tempo. Hoje seria um sítio ou chácara.
Nessas quintas, frutas. Nativas como amora, goiaba, araçá, ananás, pitanga e guabiroba. Outras, trazidas da Europa, como pêssego, ameixa e pera. Laranjas também havia nas quintas: de casca grossa, eram as “laranjas crioulas”.
Por ser um lugar repleto de laranjas, tornou-se nome: Praia do Laranjal. Com o fim das quintas, das frutas e das laranjas, do nome restou a praia.
Lá por 1960, para se chegar à praia da lagoa, pessoas – a pé, a cavalo ou em charretes – mais tarde em ônibus ou carros, faziam o caminho pelo Areal. Por isso Avenida tão larga, a Domingos de Almeida. E tão cheia de árvores... sombra, para o descanso no trajeto, que era longo.
 Na Baronesa, mais ou menos o meio.
 No fim da Rua das Traíras – essa eu ainda não descobri a origem do nome, mas não creio ser difícil – uma balsa fazia o translado. Onde acabava a Rua das Traíras e começava a balsa? Ao lado da Charqueada São João, uma Charqueda de verdade que hoje serve de moldura para filmes, faz parte de roteiro turístico, cenário para amores...
Memória exposta!
Depois da balsa, não sei bem quando, construíram um pontilhão de madeira, que dava passada para um de cada vez. Carro, não pessoa, ou seria pinguela...
Desviei-me novamente, volto ao temporal...
Nesse dia, ouviram-se rajadas, como assovios...
Uma sinfonia de muitos fantasmas, unidos, querendo assustar os vivos?
Muito surrou, as árvores, esse assovio.
Como chibatas.
Como nas charqueadas.
Muito fustigaram, a areia, essas rajadas.
Como o sal, no charque, em idos tempos...
E em muitas casas entraram as águas, mandadas pelas rajadas.
Vento e água.
Juntos.
Fortes.
Incessantes.
Por muitos passos, para além da largura da areia, para além do calçadão, para além da avenida à beira, para além das quadras primeiras...
Água.
Mais água.
Imensa e revolta e forte e rápida água.
Uma noite quase inteira.
De volume.
De água e do barulho dela.
E muito se disse quando tudo serenou, depois de dias.
Cada crença uma explicação encontrou, quando aos limites da lagoa voltaram as águas.
Castigo da natureza! Revolta de Iemanjá...
Desígnios de Deus. Dívidas com os antepassados...
Aviso de algo maior?
O Menino, que de crenças poucas vive a vida, curioso ficou com as cobras.
As cobras no Laranjal.
Muitas. Mortas. Soltas. De todas as cores. Tamanhos. Jeitos. Algumas vivas.
Para o Menino, o temporal foi lamento pela morte e sorriso pela possibilidade de olhar bem de perto.
Pegar. Levar. Para a escola. As cobras.
Nunca na praia tinha visto cobras.
E nem sabia de onde vinham.
Da lagoa?
Das dunas?
Dos banhados que a lagoa transformou num só mundo d’água?
Nas areias, em brincadeira, pegadas de cachorros viravam marcas de dinossauros. A mãe inventava histórias sobre a saída, à noite, desses pré-históricos para avisar aos de hoje, que ainda, sim. Mas cobras? A mãe não inventara...
O mistério, as cobras, ninguém ainda sabe, de onde.
O Menino sabe.
Inventos podem ser, podem não ser...

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Alfabetização Literária: os bebês e seus modos de ler

A pesquisadora com o seu bebê, em 1996
Como ensinar um bebê a gostar de ler?
A partir de estudos iniciados em 2015 com bebês desde o nascimento, pretendo descrever a “educação para o gosto” ofertada a um grupo de bebês que, aleatoriamente, foram sendo incorporados à investigação.
Parto do princípio de que a leitura, habilidade adquirida de crucial importância para a vida dos humanos em sociedade, deve ser apresentada à infância logo que nossos filhotes indiquem suportar a própria cabeça: quando conseguem ficar eretos, sentados sozinhos ou em nossos colos. É nesse momento que podem ser apresentados ao comportamento leitor que é aqui descrito como um grupo encadeado de atitudes que se sucedem e do qual faz parte o observar, ouvir, conter, abrir, folhear, ler, preservar, fechar e guardar.
Se bebês não têm manual de uso, como muitos de nós poderíamos desejar, por que não apresentar a eles o livro e a literatura desde tenra idade e em seus atributos? Por que não inseri-los no mundo da cultura letrada desde os primeiros contatos? Argumento que essa “apresentação”, no entanto, não pode ser eventual, aleatória, desorganizada, espontânea.
Como fonte teórica para o diálogo com as descobertas que realizo desde maio de 2015, utilizei-me de pensadores para quem as práticas formadoras do leitor são definidas pelo conteúdo – o que ler – e pelos procedimentos ou “como” ler. No primeiro aspecto, Cademartori (2014), Machado (2002), Paulino (2014) e Zilberman (2005), concordam que o texto literário deve ser ponto de partida para a alfabetização literária.
Com relação aos procedimentos, Tzvetan Todorov (2010) nos ensina que a principal função de um professor é iniciar os seus “nessa parte tão essencial de nossa existência que é o contato com a grande literatura” e que à escola deveria “ensinar os alunos a amar a literatura”. Entre os resultados, meninas e meninos bem pequenos e seus modos de ler literatura.
A seguir, os slides da palestra que fiz sobre o tema em 26/04/2017, a convite do Programa em Residência Médica em Pediatria do HE/UFPel, a convite do Supervisor, Dr. Amilcare Vecchi.











terça-feira, 16 de maio de 2017

Como se faz uma palestra? Dicas...

A convite do Professor Doutor Amilcare Vecchi, Supervisor do Programa de Residência Média em Pediatria do Hospital Escola da UFPel, na manhã do dia 26 de abril de 2017, uma quarta-feira que anunciava o inverno, palestrei.
O foco do convite foi explorar aspectos metodológicos de uma apresentação de trabalho científico ou palestra.
Página inicial da palestra ministrada
no HE/UFPel em 26/04/2017.
Interessada em exemplificar aos estudantes o que considero relevante e atual, escolhi minha mais recente pesquisa e seus primeiros resultados para dialogar sobre como publicizar estudos e evidências.
Nos quadros a seguir - o PowerPoint que organizei posteriormente para ofertar ao grupo do Professor Amilcare - algumas “dicas pedagógicas”.
Boa leitura!








segunda-feira, 15 de maio de 2017

Eu recomendo: O adiado avô, de Mia Couto


Escolhi “O adiado avô”, de Mia Couto como leitura recomendada para os ouvintes do programa Tons e Letras qua vai ao ar no sábado, dia 21/05, sábado, na FM Cultura de Porto Alegre.
O conto de Mia, "O adiado avô", está publicado junto a outros 16 contos que privilegiam histórias da infância no livro “A menina sem palavra: histórias de Mia Couto”, Editado no Brasil pela Boa Companhia, em 2013.
Mia Couto é um jovem autor que escreve poemas, crônicas, romances e contos. Eu, gosto mais dos contos. Sua prosa poética, um jeito de escrever que nos deixa em dúvida se é narrativa ou poema, lembra os escritos de Guimarães Rosa. Quando leio Mia Couto, sempre rememoro “Fita verde no Cabelo: Nova velha estória”. E ouso pensar que tanto Guimarães quanto Mia escreveram para que eu os leia.
Mas, vamos ao “adiado avô”, pois urge conhecer palavras de Mia Couto. Escolhi o primeiro parágrafo, que reproduzo aqui:

“Nossa irmã Glória pariu e foi motivo de contentamentos familiares. Todos festejaram, excepto o nosso velho, Zedmundo Constantino Constante, que recusou ir ao hospital ver a criança. No isolamento de seu quarto hospitalar, Glória chorou babas e aranhas. Todo o dia seus olhos patrulharam a porta do quarto. A presença de nosso pai seria a bênção, tão esperada quanto o seu próprio recém-nascido.
– Ele há-de vir, há-de vir.
Não veio. Foi preciso trazerem o miúdo a nossa casa para que o avô lhe passasse os olhos. Mas foi como um olhar para nada. Ali no berço não estava ninguém.”

Pergunto a vocês, leitores: Zedmundo será avô?
No desenrolar do conto, uma instigante e pungente história em sete páginas, o tema é o pertencimento. E, ao mesmo tempo, refere-se ao desejo de voltar aos braços dos cuidadores na infância: pais, mães, avós, tios, irmãos mais velhos. É um modo de observar a saudade de dar colo e de ganhar colo. Mia Couto revela, nas palavras do adiado avô, como é difícil adultecer. Leia:

"... no côncavo de suas intimidades, o velho Zedmundo se explicou. Eu não sou avô, eu sou eu, Zedmundo Constante. Agora, ele queria gozar o merecido direito: ser velho. A gente morre ainda com tanta vida! Você não entende, mulher, mas os netos foram inventados para, mais uma vez, nos roubarem a regalia de sermos nós. E ainda mais se explicou: primeiro, não fomos nós porque éramos filhos. Depois, adiámos o ser porque fomos pais. Agora, querem-nos substituir pelo sermos avós".

Leia “O adiado avô”.
Leia escritores em língua portuguesa.
Leia este e os demais contos de Mia Couto.
E ouça o programa Tons e Letras. Ele vai ao ar às 11 horas dos sábados, na FM Cultura de Porto Alegre.

Ficha técnica:
Tons & Letras
Apresentação: Luís Dill
Produção: Luís Dill
Horário: Sábados, às 11h
Twitter: @fm_cultura
Facebook: fmcultura107.7

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Uma infâcia com brinquedos...

Antecipando a Semana Mundial do Brincar (21 a 28 de maio) inventei uma pesquisa informal, em minha lista de contatos, sobre o brinquedo predileto de cada um. A consulta – uma brincadeira com pessoas entre seis e setenta e nove anos via WhatsApp – foi inspirada no convite enviado pelo Rogério Würdig, brincador e atual diretor da FaE/UFpel, que, em 01 de maio de 2017,  nos comunicou a respeito da Semana Mundial do Brincar promovida pela Aliança pela Infância, cujo tema, neste ano, é “O Brincar que Encanta o Lugar”.
Imediatamente, 73 pessoas responderam, indicando que eu havia tocado em algo precioso. Até o dia de hoje, um grupo maior já respondeu: 123 pessoas. E a cada dia recebo uma mensagem, referondo-se à infância ou ao brincar. Os que estão abaixo indicados como prediletos foram enviados por quatro crianças (duas meninas e dois meninos), 18 homens e 101 mulheres.

Brinquedo predileto
O brinquedo citado como preferido por trinta e duas pessoas foi “boneca”. Isso corresponde a 26% do total de respostas e elas foram enviadas por meninas e mulheres. Muitas enviaram a foto da boneca que ainda guardam, outras mencionaram seus nomes (Mimadinha, Neneca, Lúcia, Ana...), do que eram feitas (de retalhos, porcelana, louça, massa, papel, pano, plástico), o que estes brinquedos faziam que as encantavam (choravam, comiam, faziam xixi, abriam e fechavam os olhos, tinham cheirinho). Na pesquis, comprovamos que para o grupo ouvido, as bonecas são as grandes companhias das infância de parte considerável das meninas, mas não da maioria.
Brinquedos que tiveram mais de uma menção fora: brincar com uma bola (seis), ter ou brincar com bichos de pelúcia (seis), brincar de bicicleta (quatro), com casinha de boneca (quatro). Ocorreu empate entre as vezes que carrinhos, panelinhas, bolinhas de gude, esconde-esconde e videogames foram lembrados como prediletos: três pessoas cada.
Ler (livros e gibis), ouvir música (discos) ou brincar de escola ou com “coisas de escola” foi citado por nove adultos como brinquedo predileto. Brinquedos com controle remoto (moto, avião), quebra-cabeça, carrinho de lomba ou rolimã e brincar de sapata foram citados duas vezes cada. Três pessoas disseram que seus brinquedos foram tantos que não sabem escolher um predileto.
As demais brincadeiras foram citadas uma vez cada, entre elas, fazer teatro com os irmãos, jogar amarelinha, “pense bem”, três Marias, taco, bilboquê, bola ao pé, cai-não-cai. Mas alguns lembraram como predileto andar à cavalo, com “pé de lata”, de patins, triciclo ou roller e pular elástico. Não faltou soltar pandorga, brincar com bonecas de papel e suas roupas e com brinquedos de encaixar. Alguns mencionaram invenções como brincar com uma tampa de panela e um saco de plástico na cabeça. Outros, disseram gostar de água-play, de girafa de plástico, de dinossauros, caixa registradora, liquidificador. E tem uma professora que um dia foi babá e disse: “Lembro de assistir ao filme “Rei Leão” mil vezes, e chorar sempre, com o menino que amei cuidar”. Duas informantes que moravam no campo quando crianças mencionaram fazer "casinha no mato", brincar de fazenda com os ossinhos e com boneca de pano vestidas com roupas de bebê, “pois minha mãe teve quatorze filhos e sempre havia alguma touca cheia de frufus para brincar”. Um jovem respondeu mandando uma foto de seus índios de plástico.

Um pedacinho de infância nos depoimentos:
Algumas pessoas não se furtaram a sonhar ao rememorar seus brinquedos. Mandaram um depoimento por escrito ou em mensagem de voz, que muito nos alegrou. Leia alguns:
“Tenho minha boneca Mimadinha há 40 anos. Ganhei dá minha avó quando tinha 7 anos. Está velhinha, mas não deixo ela por nada...”
 “Tive dois: um macaco de pelúcia que tomava mamadeira, presente de Natal. Meu pai me levou em uma loja que tinha um andar inteiro de brinquedos e eu podia escolher o que quisesse, inclusive uma boneca. Quando vi o "Tico", não quis outro presente. Eu tinha 7 anos e ainda tenho ele comigo passados 37 anos.  O outro, um jogo de panelas de plástico onde cada panela tinha um rosto. A de arroz, a cara de um chinês.  Tinha fogão e também um bule. As panelas eram coloridas. Eu escolhi no dia das crianças.  Meu pai queria me dar panelas de verdade em tamanho pequeno,  mas eu queria aquelas. No dia das crianças, minha irmã maior brincou comigo.  Colocamos arroz e feijão nas panelas e fizemos de conta que cozinhávamos. Também fizemos suco. Por muitos anos brinquei com essas panelas que depois dei pra uma prima, quando cresci.
“Meus prediletos eram aranhas, sapos, lagartixas, cobras de plástico e cachorros de verdade”.
“Meu brinquedo predileto foi um carrinho. Era um fusca verde, tão pequeno que cabia na minha mão. Eu sempre quis ter um carrinho, mas era menina e não podia. No meu aniversário de 8 anos, ganhei do meu tio. Só para zoar comigo, mas tenho ele guardado até hoje! Da mesma forma, quando tinha um quadro e meu sonho era ganhar uma caixinha e giz. Tenho esta caixa com apagador até hoje, usei no meu estágio. Foi incrível essa magia. Sempre gostei de brincar de ser professora e hoje sou uma professora muito feliz”.
“Bonecas. Tive quatro em toda a minha infância. A Ana Lúcia que era grande e as gêmeas, que eram duas bonecas iguais. Todas com rosto de porcelana e cujos olhos abriam e fechavam e um boneco grande que eu chamava Janjão e que várias vezes foi consertado, pois minhas amigas enfiavam os dedos nos olhos e eles iam para dentro”.
“Um pequeno urso que quando eu dava corda ele andava, pois tinha rodinhas embaixo do pé e tocava musiquinha”.
“Meu brinquedo era um boneco. Eu não brincava com ele. Só estava lá e na minha imaginação, era meu filho”.
“As casas de bonecas que fazíamos dentro de revistas. Recortávamos gravuras: moças, rapazes, salas, cozinhas, quartos, banheiros, roupas... Colocávamos cada uma numa folha de revista, que era a casa da boneca e, assim, tínhamos várias casas de bonecas. Foi um dos primeiros livros artesanais da minha infância. Sou de 1957. Revista manchete, Cruzeiro...”.
“Uma boneca de pano negrinha com cabelos cor de rosa que minha mãe fez. Ela carregava seu bebê na barriga, tinha uma abertura que se podia simular um parto e ainda possuía seios para amamentar.
“Meu brinquedo predileto foi uma tampa de panela e um saco plástico na cabeça. Isso ocorreu por causa do Senna, eu brincava de ser o Senna sempre. Até hoje me dá um nó na garganta quando vejo o acidente”.
“Meu brinquedo predileto foi o patins, fazia manobras radicais!”
“Meu predileto foi boneca e bolinha de gude. Cresci numa família que considerava brinquedo igual a objeto desnecessário”.
“Gostava muito de brincar com bichos de plástico montando fazendinhas e depois de certa idade, brincava de escola, onde eu sempre era professor”.

Um depoimento gravado
Na segunda-feira dia 08/05, encontrei uma das pessoas que havia mandado a mensagem. Logo que me viu, mencionou a pesquisa, dizendo que não havia respondido. Junto com uma cunhada que a visitava, ficamos ali as três, de três gerações diferentes, relembrando o passado. Animadas pela minha curiosidade, as duas se puseram a rememorar e, imediatamente, solicitei que gravássemos a conversa. Foi dela que resultou o seguinte depoimento:


“Brincávamos com casinha de torrão, quincha de santa fé, fazia uma casinha no mato, fazia comida de panelinha, um foguinho de chão. O teto era com macega e Santa fé, o ponto em cima com agulha de arame e imbira, tira de imbira, dava o ponto em cima para segurar a quincha. E tinha o gado do campo, as ovelhas que eram ossinhos das canelas das ovelhas: tinha o touro, a ovelha, o carneiro, a vaca que dava leite, o terneirinho... Durante a sestea do pai e da mãe, dos meus cinco aos doze, treze anos, quando comecei a namorar, eu brincava de fazendinha, de boneca, de casinha no mato. Bonecas: eram umas bonequinhas de pano, paninhos enroladinhos. Minha mãe era costureira, nós pegávamos os retalhos e enrolava o corpo das bonecas, fazia os bracinhos com paninhos mais fininhos, fazia as perninhas com paninhos mais grossinhos. Pegava as roupas das crianças – minha mãe teve 14 filhos, sempre tinha roupa de criança pequenas aquelas toquinhas cheias de frufru. Era muita boneca: as mães, avós, filha, tia. E tinha os noivos. Posso gravar isso? Os bonecos homens tinham uns tiquinhos. Nós éramos espertas, sim. Fazíamos o casamento. Noivavam, casavam, namoravam, tudo. Quando era para ter filho, botávamos uma barriga postiça, nas bonecas, depois nascia a criança”.
Agradecemos a todos que reponderam e que abriram sua memórias. Foi lindo saber que a infância de muitos teve sonho, bricadeira, brinquedos, amigos, alegrias. E que além de pertencerem à memória, alguns desses brinquedos ainda existem...

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Livros imperdíveis: 88 opiniões

No dia 23 de abril comemora-se o dia internacional do livro. Neste dia, um domingo, dei início a uma pesquisa informal, através de uma rede social - o WhatsApp - sobre um título que minha rede de contatos indicaria como imperdível. As respostas recebidas - 88 títulos, alguns repetidos - estão listadas abaixo, em ordem alfabética.
Ao ler e organizar esses títulos, pincei algumas características para olhar com mais afinco a lista de livros citados como maravilhosos, importantes, imperdíveis. E o que se destaca entre as respostas recebidas? Além do mais citado – O pequeno Príncipe – os prediletos de três crianças: O sítio do Pica-Pau Amarelo, de Monteiro Lobato; Psiu, o fantasma camarada, de Pedro Bandeira e a Bíblia Sagrada. Em destaque, pelo inusitado, dois livros técnicos citados como imperdíveis: um deles por uma estudante de Pedagogia (Avaliar para promover, de Jussara Hoffmann) e o segundo por uma professora do Ensino Fundamental (Literaturas Africanas e Afro-Brasileira na Prática Pedagógica).
Entre os prediletos dos demais respondentes, há diferenciados gêneros (clássicos, narrativa, poesia, aventura, técnicos, auto-ajuda e até livros destinados à infância). Entre os autores, há russos, dois portugueses, alguns ingleses, um moçambicano, um colombiano famoso e uma colombiana encantadora. Há Isabel Allende, que nasceu em Lima, Peru, mas é de ascendência Chilena. E há franceses, três alemães, um dinamarquês e alguns brasileiros, com destaque para dois mineiros – Bartolomeu Campos de Queirós e Carlos Drummond de Andrade e duas, sob meu ponto de vista dolorosas, ausências: Guimarães Rosa e Mario Quintana.
Leia a lista, aproveite as sugestões e pense: qual seu próximo imperdível?

1.       A bolsa amarela, de Ligia Bojunga.
2.       A cabana, de William P. Young
3.       A culpa é das estrelas, de John Green
4.       A dama de espada, de Aleksandr Puchkin.
5.       A ferro e fogo, de Josué Guimarães.
6.       A Mãe, de Maximo Gorki.
7.       A máquina de fazer espanhóis, de Valter Hugo Mãe.
8.       A menina que roubava livros, de Markus Zusak
9.       A menina sem palavras, de Mia Couto
10.   A mulher que escreveu a Bíblia, de Moacyr Scliar
11.   A professora encantadora, de Márcio Vassalo
12.   A Química, de Stephanie Meyer
13.   A rosa do povo, de Carlos Drummond de Andrade
14.   A volta ao mundo por dois garotos, de Henri De La Vaux.
15.   Anne Frank - O outro lado do diário, de Miep Gies e Alison Leslie Gold.
16.   Avaliar para promover, de Jussara Hoffmann.
17.   blia sagrada
18.   blia sagrada
19.   Bisa Bia, bisa Bel, de Ana Maria Machado
20.   Caim, de José Saramago.
21.   Cândido, o otimista, de Voltaire
22.   Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez
23.   Contos africanos, de
24.   Contos de Fadas: de Perrault, Grimm, Andersen e outros...
25.   Contos de Fadas: de Perrault, Grimm, Andersen e outros...
26.   Contos Escolhidos, de Machado de Assis
27.   Contos Gauchescos de João Simões Lopes Neto.
28.   Crime e Castigo, de Fiódor Dostoiévski
29.   Crônica de uma Vida de Mulher de Arthur Schnitzle
30.   Dívida, de David Graeber
31.   Dom Casmurro, Machado de Assis
32.   Dom Quixote, de Miguel de Cervantes                     
33.   É tarde para saber, de Josué Guimarães
34.   Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago
35.   Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago
36.   Eva Luna, de Isabel Allende
37.   Extraordinário, de R. J. Palacio
38.   Farmácia Literária, de Susan Elderkin e Ella Berthoud
39.   Fausto, de Goethe
40.   Felpo Filva, de Eva Furnari
41.   Fernando Capelo Gaivota.
42.   Fica comigo esa noite, de Inez pedrosa
43.   Frida, de Yolanda Reyes
44.   Gente pobre, de Fiódor Dostoievski
45.   Jogos Vorazes, de Suzanne Collins
46.   La Isla bajo el mar, de Isabel Allende
47.   Literaturas Africanas e Afro-Brasileira na Prática Pedagógica, de Amâncio e Lúcia
48.   Madame Bovary, de Flaubert.
49.   Memórias de Subsolo, de Fiódor Dostoievski.
50.   Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida
51.   Meu livro de Cordel, de Cora Coralina
52.   Meu pé de laranja lima, de José Mauro de Vasconcelos
53.   Meu pé de laranja lima, de José Mauro de Vasconcelos
54.   Morreste-me de José Luis Peixoto
55.   Não te deixarei morrer, de David Croler
56.   Noite, de Erico Verissimo
57.   Nosso Lar, de André Luiz /Francisco Cândido Xavier
58.   Nova Antologia do conto russo, organizada por Bruno Barretto Gomide
59.   O amor nos tempos do cólera, de Gabriel García Márquez
60.   O anjo pornográfico, de Rui Castro
61.   O conto da ilha desconhecida, de Saramago
62.   O diário de Frida Kahlo, de Frederico de Moraes
63.   O Estrangeiro, de Albert Camus
64.   O mundo de Sofia, de Jostein Gaarder
65.   O pato, a morte e a tulipa, de Wolf Erlbruch
66.   O pequeno príncipe, de Saint Exupéry
67.   O pequeno príncipe, de Saint Exupéry
68.   O pequeno príncipe, de Saint Exupéry
69.   O pequeno príncipe, de Saint Exupéry
70.   O pequeno príncipe, de Saint Exupéry
71.   O sítio do Pica-Pau Amarelo, de Monteiro Lobato
72.   O Tempo e o Vento, de Érico Veríssimo
73.   O Tempo e o Vento, de Érico Veríssimo
74.   Os oito pares de sapatos de Cinderela, de Torero e Pimenta
75.   Os pilares da terra, de Ken Follett
76.   Pássaros feridos, de Colleen Mccullough
77.   Perdas e ganhos, de Lya Luft
78.   Por um simples pedaço de cerâmica, de Linda Sue Park
79.   Psiu, o fantasma camarada, de Pedro Bandeira.
80.   Quando as cores foram proibidas, de Monika Feth
81.   Quem, eu? Uma avó. Um neto. Uma lição de vida, de Fernando Aguzzoli
82.   Robinson Crusoé, de Daniel Defoe
83.   Simples assim, de Martha Medeiros
84.   Toda Poesia, de Manoel de Barros
85.   Triste fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto.
86.   Um dos pesquisados indicou toda a obra de Raymond Radiguet.
87.   Vaudeville, de Ricardo Amaral

88.   Vermelho Amargo, de Bartolomeu Campos de Queirós.

Alfabeteando...

Olá, bem vindo!

Um "Alfabeto à parte" foi criado em setembro de 2008 e tem como objetivo discutir a leitura e a literatura na escola. Nele disponibilizo o que penso, estudos sobre documentos raros e meus contos, além de uma lista do que gosto de ler.

Em 2013 concluí pesquisa sobre o Abecedário Ilustrado Meu ABC, de Erico Verissimo, publicado pelas Oficinas Gráficas da Livraria do Globo em 1936. O lançamento do livro e sua repercussão estão no Blog. Alguns artigos sobre a pesquisa também. Leia e dê sua opinião.

A novidade, em 2015, foi a inauguração da Sala de Leitura Erico Verissimo, um sonho antigo que agora se realiza. Em 2016, o processo de restauro da Biblioteca na Escola Fernando Treptow, inaugurada em 25 de novembro.

Em 2017 estou produzindo a Biografia de João Bez Batti. Através de relatos pessoais nos quais a criançaque João foi é a personagem principal, recosntruo, com narrativas litetárias, seu descobrimento como escultor. Bilíngue (português e italiano) o livro tem data para ser lançado: 11/11/2017.

Abraço

Cristina