quinta-feira, 21 de julho de 2016

Paradidáticos: isso é literatura?

Um teimozo

Esse Juca é levado da carepa!
Debalde sempre se lhe recomendava:
- Não brinque com fósforos!
- Não metas cacos de vidro no bolso!
- Não ponhas botões na boca!
Qual! Era o mesmo que nada: lá aparecia ele com cara chamuscada por cauza dos fósforos, com um dedo cortado pingando sangue, engasgado com um caroço ou um botão e até um dia o teimozo quazi que enguliu um alfinete. Agora o Juca teimou em fazer equilíbrio sobre uma cadeira de embalo.
Sobre uma cadeira de embalo! Sim, senhor. Vêja!
Como tive necessidade de sair de casa não sei o que teria acontecido, pois de volta, achei-o na cama, muito pálido, e chorando, das dores que sentia.
-Oh! rapaz, o que é isso? Choramingar não é responder?
Diga-me você o que foi que sucedeu ao teimoso Juca.
Desta vez tomará juízo?
Pode ser, pode ser!
(JSLN, Artinha de Leitura, 1907, p.53-54).


O que são textos ou obras paradidáticas?
De acordo com os Parâmetros Curriculares Nacionais, os livros paradidáticos têm a função de desenvolver valores como bondade, amizade, respeito, honestidade, ecologia, meio ambiente, poluição, dentre outros. Assim, os “valores humanos” como convivência e educação, responsabilidade e solidariedade, respeito e mentira e desprezo são temas recorrentes nestes casos. Para Menezes (2001), paradidáticos são “livros e materiais que, sem serem propriamente didáticos, são utilizados para este fim” e são importantes pois utilizam “aspectos mais lúdicos que os didáticos”, buscando maior eficiência “do ponto de vista pedagógico”.
De onde vem essa nomenclatura?
Os livros, textos ou materiais paradidáticos recebem esse nome porque “são adotados de forma paralela aos materiais convencionais”, como livros, cartilhas, textos didáticos utilizados na escola. Estes não os substituem, mas abordam temas que, nem sempre, os didáticos contempla.
Para Rangel, ao que tudo indica que “o termo paradidáticos surgiu como adjetivo, qualificando um tipo de publicação que, a partir da década de 1970, começou a proliferar na produção editorial brasileira voltada para o uso escolar”.
O intuito foi “distinguir esses produtos dos livros didáticos tradicionais, sempre associados a disciplinas, organizados em coleções seriadas e pensados para uso cotidiano”
Principal diferença
A principal diferença entre paradidáticos e demais livros em uso na escola consiste na abrangência, ou seja, os paradidáticos “não pretenderem cobrir a matéria de uma série nem, muito menos, de todo um segmento do ensino” e fixavam-se, antes, “em um único tópico de interesse curricular, tratado de forma mais especializada e/ou aprofundada”, de acordo com Rangel (2014). Paradidáticos é uma expressão que, desde então, “passou a designar esse tipo de produção editorial; e vem sendo empregada, desde então, como substantivo”.
É um gênero?
Pesquisadores do livro e da leitura, de acordo com Rangel (2014) “têm se perguntado se os paradidáticos constituiriam um gênero discursivo, a exemplo do que outros investigadores postularam para os livros didáticos”. Como a “variabilidade desses materiais é bastante ampla” acredita o pesquisador que este aspecto tem “dificultando a definição de características que lhes seriam exclusivas”, constituindo assim um gênero. E completa afimando que “seus muitos usos escolares – sempre complementares e/ou alternativos aos tradicionalmente associados aos livros didáticos – é que têm sido decisivos para que certas produções editoriais sejam consideradas paradidáticas”.
A LDB e os paradidáticos
A partir da Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), que estabeleceu os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) e orientou para a abordagem de temas transversais relacionados ao desenvolvimento da cidadania, livros paradidáticos pulularam nas editoras brasileiras. Dessa forma, de acordo com Menezes (2001), “abriu-se espaço para o aumento da produção de obras para serem utilizados em sala de aula, abordando temas como Ética, Pluralidade Cultural, Trabalho e Consumo, Saúde e Sexualidade”. Outro incremento para a utilização destes livros na escola foi o PNLD (Programa Nacional do Livro Didático) e  o PNBE.
Literatura?
Se o intuito é desenvolver valores éticos e morais nos alunos, trazendo discussões acerca de fatos que acontecem no cotidiano e oportunizando que pensem em atitudes com os colegas, professores e família, o que há de literários neles? A Literatura infantil, desde a origem, ofereceu diversão e/ou aprendizado às crianças. Paço (2009) afirma que se buscava um conteúdo “adequado ao nível da compreensão e interesse desse peculiar destinatário”. Adulto em miniatura, os primeiros textos infantis “resultaram de adaptações ou da minimização de textos escritos para os adultos” e, neste processo, foram “expurgadas as dificuldades de linguagem, as digressões ou reflexões” que estariam além da compreensão infantil. Além disso, “ações ou peripécias de caráter aventuroso ou exemplar” buscavam atingir o pequeno leitor/ouvinte para “participar das diferentes experiências que a vida pode proporcionar ao nível do real ou do maravilhoso”. Assim, um texto paradidático, por anos, foi pensado, escrito e utilizado como se literatura fosse. Em seu âmago, ensinamentos, lições morais, exemplares, especialmente no trato com o outro: o colega, a família, a professora, os mais velhos, os que merecem respeito e admiração.
O exemplo inicial: um conto de João Simões Lopes Neto.
Na IV Parte do Livro “Artinha de Leitura” de JSLN, às páginas 50 até a 60 há a escrita de quatro contos morais. Dois deles abordam a teimosia e a curiosidade e os outros dois, pecados capitais (a gula e a preguiça). Em toda a cartilha composta por 83 páginas, essas dez são as únicas que trazem narrativas. Ilustradas com figurinhas que apresentam cenas com início, meio e fim, não há nenhuma inscrição original ou do autor sobre elas. Os textos que as acompanham– pequenas historietas criadas por Lopes Neto – aparentemente foram escritos a partir da colagem das figuras em um caderno, base material de seu livro, e não há indicação de onde foram retiradas. A primeira das historietas é sobre a teimosia e o personagem central é um menino – Juca – que é “levado da carépa”. Para quem não sabe, carepa é uma espécie de caspa, ranhuras da madeira, pó sobre frutas secas ou mesmo penugem de alguns frutos (Houaiss, 2004). Mantida com a grafia encontrada no original, podemos perceber o uso da linguagem de um século atrás.
Referências:
MENEZES, Ebenezer; SANTOS, Thais. Verbete Paradidáticos. Dicionário Interativo da Educação Brasileira. São Paulo: Midiamix, 2001. Disponível em: http://www.educabrasil.com.br/paradidaticos
PACO, Gláucia. O encanto da literatura infantil no CEMEI Carmem Montes. TCC/Lato Senso. SP/Mesquita,2009.
RANGEL, Egon. Paradidáticos. Glossário CEALE. Belo Horizonte: UFMG/CEALE, 2014.
ROSA, Cristina. Pecados Capitais em JSLN. Disponível em: http://crisalfabetoaparte.blogspot.com.br/2008/11/pecados-capitais-em-jsln.html

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Um "Alfabeto à parte" foi criado em setembro de 2008 e tem como objetivo discutir a leitura e a literatura na escola. Nele disponibilizo o que penso, estudos sobre documentos raros e meus contos, além de uma lista do que gosto de ler.

Em 2013 concluí pesquisa sobre o Abecedário Ilustrado Meu ABC, de Erico Verissimo, publicado pelas Oficinas Gráficas da Livraria do Globo em 1936. O lançamento do livro e sua repercussão estão no Blog. Alguns artigos sobre a pesquisa também. Leia e dê sua opinião.

A novidade, em 2015, foi a inauguração da Sala de Leitura Erico Verissimo, um sonho antigo que agora se realiza. Em 2016, o processo de restauro da Biblioteca na Escola Fernando Treptow, inaugurada em 25 de novembro.

Em 2017 estou produzindo a Biografia de João Bez Batti. Através de relatos pessoais nos quais a criançaque João foi é a personagem principal, recosntruo, com narrativas litetárias, seu descobrimento como escultor. Bilíngue (português e italiano) o livro tem data para ser lançado: 11/11/2017.

Abraço

Cristina