quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

O Lagarto, de José Saramago

O livro que recomendei hoje, 07 de dezembro aos ouvintes do Programa Tons & Letras como imprescindível neste final de ano é O lagarto, de José Saramago. Conto breve incluído no livro A Bagagem do Viajante, foi publicado originalmente em 1973 e é uma “história de fadas” repleta de ironia e poesia. Ouça como inicia:
“De hoje não passa. Ando há muito tempo para contar uma história de fadas, mas isso de fadas foi chão que deu uva, já ninguém acredita, e por mais que venha a jurar e tresjurar, o mais certo é rirem-se de mim. Afinal de contas, será minha simples palavra contra a troça de um milhão de habitantes. Pois vá o barco à água, que o remo logo se arranjará”.
No Brasil, o conto foi publicado pela Companhia das Letrinhas e chega às mãos dos leitores em uma encadernação vigorosa: é colorido, ilustrado com xilogravuras de página inteira, possui capa dura e foi impresso em papel produzido a partir de fontes responsáveis. Para ampliar seus atributos, há minibiografias do autor e do ilustrador nas páginas finais. Mas é no site acasajosesaramago.com[1] que li a seguinte informação: “Cabe esclarecer que saramago é uma planta herbácea espontânea, cujas folhas, naqueles tempos, em épocas de carência, serviam como alimento na cozinha dos pobres”. São palavras do escritor em sua autobiografia referindo-se a seu nome e a sua origem.
Saramago alimento. Concordo!
Mais um pedacinho, que o melhor do livro é sua escrita:
“A história é de fadas. Não que elas apareçam (nem eu o afirmei), mas que história há de ser a deste lagarto que surgiu no Chiado? Sim, apareceu um lagarto no chiado. Grande e verde, um sardão imponente, com uns olhos que pareciam de cristal negro, o corpo flexuoso coberto de escamas, rabo longo e ágil, as patas rápidas. Ficou parado no meio da rua, com a boca entreaberta, disparando a língua bífida, enquanto a pele branca e fina do pescoço latejava compassadamente”.
Uma peculiaridade – as xilogravuras feitas especialmente para o livro pelo artista popular brasileiro José Francisco Borges – reapresentam para os leitores uma técnica de origem chinesa, produzida a partir de entalhe em madeira. A imagem resultante é o contrário do que foi talhado, exigindo do artesão o conhecimento de cores, sombra e luz, frente e verso, entre outras habilidades. Quando mergulhada em tinta, imprime os relevos deixados propositalmente e a xilogravura pode ser considerada tataravó das impressoras atuais, até mesmo as 3D.
Aparentemente um conto para crianças (pela encadernação e colorido, tamanho e formato do livro e até mesmo pela proposta de Saramago em nomeá-la conto de fadas), O Lagarto foi lançado em 2016 pela Fundação José Saramago. O autor, falecido em 2010, é o mais reconhecido escritor em língua portuguesa e suas publicações são, a cada dia, redescobertas por novos leitores.
Apresente Saramago para os seus!
Eles vão ficar encantados com este conto de fadas, embora, como escreve Saramago, “isto de contos de fadas já não é nada o que era”! Quer conhecer o desfecho da narrativa sobre o lagarto que apareceu no Chiado? Leia O lagarto, de José Saramago.
Cultive os autores em língua portuguesa e não deixe de presentear livros no Natal.

O lagarto, de José Saramago.
Cristina Maria Rosa, 07 de dezembro de 2016.
Ficha técnica:
Tons & Letras
Apresentação: Luís Dill
Produção: Luís Dill
Horário: Sábados, às 11h
Twitter: @fm_cultura
Facebook: fmcultura107.7

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Um "Alfabeto à parte" foi criado em setembro de 2008 e tem como objetivo discutir a leitura e a literatura na escola. Nele disponibilizo o que penso, estudos sobre documentos raros e meus contos, além de uma lista do que gosto de ler.

Em 2013 concluí pesquisa sobre o Abecedário Ilustrado Meu ABC, de Erico Verissimo, publicado pelas Oficinas Gráficas da Livraria do Globo em 1936. O lançamento do livro e sua repercussão estão no Blog. Alguns artigos sobre a pesquisa também. Leia e dê sua opinião.

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Abraço

Cristina