quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Clássico: o que é isso?



Na aula de Literatura Infantil II (Licenciatura me Pedagogia da FaE/UFPel) ocorrida em 17/09/2014, uma das estudantes perguntou:
- Professora, o que é um clássico?
Respondi para ela, mostrei alguns dos livros que havia levado, indiquei algumas das características de um texto clássico.  E fiquei pensando. Por que não escrever um pequeno texto sobre isso? Vamos a ele.
Ao buscar apoio entre os teóricos, encontrei um pequeno e claro texto do Sergius Gonzaga[2]. Ele busca delimitar ou mesmo circunscrever alguns “traços definidores do que hoje se considera um texto clássico”. Para ele, a primeira característica é a atemporalidade, ou seja, clássica é uma obra que ultrapassa “o seu tempo, persistindo de alguma maneira na memória coletiva e sendo atualizada por sucessivas leituras, no transcurso da história”. 
Outra das características mencionadas por Gonzaga em seu texto é presença, nos clássicos, de “paixões humanas de maneira intensa, original e múltipla” e serem obras que “registram e simultaneamente inventam a complexidade de seu tempo. A linguagem é outra das características marcantes e definidoras de uma obra clássica, de acordo com Gonzaga. Para ele, nas obras clássicas há a presença de “formas de expressão inusitadas, originais e de grande repercussão na própria história literária.
Por serem “obras de reconhecido valor histórico ou documental, mesmo não alcançando a universalidade inconteste”, autores nacionais ou mesmo regionais podem ser considerados clássicos e, no Rio grande do Sul, João Simões Lopes Neto pode ser considerado um deles. Para Gonzaga, ainda, “talvez a característica fundamental de uma obra clássica seja a sua inesgotabilidade”, ou seja, a capacidade que um livro tem de permanecer interessante, novo a cada leitura, múltiplo, tendo sempre algo a nos dizer. Ele cita Calvino (1993) para corroborar sua afirmação: "Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer".
Para o estudioso, um “clássico é fundamental também pelo efeito que deflagra na consciência do leitor” e, de acordo com esse olhar, propões que o consideremos, “simultaneamente” como “forma única de conhecimento”, “utilização da linguagem de uma maneira exemplar, original e inesperada” e “um conjunto de revelações, idéias e sentimentos que têm a propriedade de durar na memória mais do que outras manifestações artísticas”.
 E na literatura para crianças, o que são considerados clássicos?
Na literatura escrita para as crianças, atualmente, são reconhecidos como clássicos os Contos de Fada, também nomeados Contos Maravilhosos ou Contos de Encantamento. São as narrativas compiladas da oralidade por Charles Perrault (1628-1703) e pelos Irmãos Grimm – Jacob (1785-1863) e Wilhelm (1786-1859) – e as narrativas criadas por Hans Christian Andersen (1805-1875), preponderantemente.
Quais as características desses contos maravilhosos que os tornam clássicos? Com certeza, a longevidade, a presença intensa e concomitante nas infâncias desde então. São narrativas que persistem na “memória coletiva” e tem sido atualizados “por sucessivas leituras” e mesmo recontações e reescrituras.
Outra das características dos contos maravilhosos que os tornam clássicos é a abordagem de temas humanos, como o amor, e nele a inveja, o ciúme, as disputas e as violações e o medo – do abandono, da solidão, da crueldade e da morte, entre outros. Esses “temas”, tratados “de maneira intensa, original e múltipla” encantam, produzem o desejo de serem desvendados, desvelados desde tenra idade.
Ao registrar e simultaneamente inventar “a complexidade de seu tempo”, os contos maravilhosos revelam a infância que havia em priscas eras, e as tramas que a ela eram pertinentes. Mesmo tendo se passado trezentos e dezessete anos de sua primeira grafia conhecida (PERRAULT, 1697), o memorável encontro de Chapeuzinho Vermelho com o Lobo Mau parece ser absolutamente passível de acontecer. Hoje. E em um matinho qualquer, a caminho do Laranjal. E é isso que o torna clássico: indica uma infância possível: ingênua, no limite entre a curiosidade e o perigo.
Uma obra, para ser considerada clássica precisa, também, criar formas de expressão “inusitadas, originais e de grande repercussão na própria história literária”. Neste caso, a clássica expressão “Era uma vez...”, que abre grande parte dos contos, além de original, tem grande impacto na memória afetiva de gerações, sendo empregada sempre que se quer anunciar a leitura ou mesmo o mistério.
Os clássicos – compilados e/ou inventados pelos autores acima citados – são obras “de reconhecido valor histórico ou documental”, integrando a história da língua dos países de origem bem como retratos de um tempo e de um modo de pensar não apenas a infância. Pela qualidade, diversidade e contribuição à dicionarização da língua, sua filologia e mesmo memória oral, os contos registrados pelos irmãos Grimm, por exemplo, são considerados patrimônio cultural[3].
Outra importante razão para os contos encantados serem considerados clássicos é sua “inesgotabilidade”, ou seja, é possível fazer diferenciadas e infindáveis leituras de uma mesma narrativa. Leituras e recontos, vide as inúmeras versões hoje conhecidas de algumas das narrativas.
No Brasil, podem-se considerar clássicas as narrativas de Monteiro Lobato, pois possuem as características que Ítalo Calvino ressalta como indispensáveis ou mesmo componentes de um clássico: possuem longevidade, tratam temas humanos com intensidade, registram e simultaneamente inventam a complexidade de seu tempo, criaram formas de expressão inusitadas, originais e de grande repercussão, tem valor histórico e documental e oferecem uma possibilidade inesgotável de leituras...
No entanto, diferentemente dos clássicos universais, há algumas características que aparecem preponderantemente em textos literários para a infância. Quais são? Entre muitas das características que definem ou mesmo organizam um texto para que ele seja considerado como pertencente ao campo da arte literária infantil está a presença da magia ou de um elemento mágico, a necessidade da imaginação ou faz-de-conta, a ancestralidade ou pertencimento, a localização geográfica e temporal indefinida ou tempo/espaço inexistente, a literariedade ou linguagem metafórica e a ludicidade ou mentira/verdade.
Assim, textos literários infantis são textos que estabelecem uma conexão imediata com a imaginação, com o mundo que existe como desejo, possibilidade. O texto literário nos remete a situações inusitadas e podemos, através dele, transgredir (a ordem, as leis, as regras, as idades) ou mesmo só pensar que se faz isso. Através dele podemos brincar de ser outro, mais novo, mais velho, com poder, sem nenhum, com muito ouro, com quase nada...
Textos literários infantis são também textos que apresentam vínculo com a ancestralidade, com nossa condição de humanos em sociedade. O texto literário nos faz pertencer e nos ensina que, um dia, em torno do fogo, ouvíamos e contávamos e, desse modo, inventávamos a linguagem...
Textos literários infantis são os que prevêem a existência de elementos mágicos, fantásticos, inverossímeis que, na trama, são absolutamente possíveis de existir, como a pó de pirlimpimpim... São textos caracterizados pela presença de linguagem metafórica e em alguns casos, de palavras ou expressões inventadas, que produzem tamanho efeito no leitor que ele acaba acreditando nelas, vivendo-as, multipicando-as. Como exemplo, temos o invencível traço de Eva Furnari e seu Pandolfo: "No reino da Bestolândia, havia um jovem príncipe chamado Pandolfo. Pandolfo nada entendia de amor ou amizade...". Pronto, já entrei no reino, visualizei Pandolfo, ele é jovem, não entende nada de amor ou amizade, o reino existe e quero saber o que será dito na próxima página. É Eva Furnari e suas invencionices. Literatura pura, da mais alta qualidade.
Textos literários infantis são brinquedos inventados por nós, através de um mecanismo incrível, o nosso cérebro e nossa imaginação. Não há máquina que imite, é criação pura, invencionice, bobices e gostosuras, como diz Fanny Abramovich. Doce e útil, a literatura tem o compromisso de encantar o leitor e, ao mesmo tempo, torná-lo mais culto, mais perspicaz, mais inteligente, mais curioso... A obra literária não tem a tarefa de informar, embora possa fazer isso, não tem a tarefa de educar, apesar de poder. Tem compromisso com a imaginação, a emoção, a estética...
Simples assim...
Punto e basta!







[1] Docente na FaE/UFPel, coordena o ALFABETA desde 2004 e o GEELHL desde 2009.
[3] Os manuscritos do primeiro volume dos Contos de Fada para o Lar e as Crianças (1812) dos irmãos Grimm foram reconhecidos pela UNESCO como patrimônio cultural da humanidade. Jacob e Wilhelm são considerados cofundadores da Germanística, pois eram colecionadores de textos da tradição popular escrita e falada, filólogos, historiadores de direito e políticos. Integral em: http://www.brasil.diplo.de/Vertretung/brasilien/pt/__pr/Nachrichten_20Archiv/02.05.13_20contos_20de_20fadas.html

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Um "Alfabeto à parte" foi criado em setembro de 2008 e tem como objetivo discutir a leitura e a literatura na escola. Nele disponibilizo o que penso, estudos sobre documentos raros e meus contos, além de uma lista do que gosto de ler.

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Em 2017 estou produzindo a Biografia de João Bez Batti. Através de relatos pessoais nos quais a criançaque João foi é a personagem principal, recosntruo, com narrativas litetárias, seu descobrimento como escultor. Bilíngue (português e italiano) o livro tem data para ser lançado: 11/11/2017.

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