quarta-feira, 6 de junho de 2012

Protocolos de leitura na obra infanto-juvenil de Verissimo

A primeira obra destinada a crianças e adolescentes de autoria do ficcionista Erico Verissimo foi publicada em 1935. A vida de Joana d’Arc, impressa pela Editora Globo de Porto Alegre, inaugura o diálogo que pretendia ter com o público. Coincidentemente, é o ano em que nasce Clarissa, a primeira filha do escritor. Neste livro não há, explicitamente, um protocolo de leitura, mas, sim, um indício de que buscava relacionar-se com o público leitor: no primeiro parágrafo da narrativa, Verissimo dirige-se aos leitores escrevendo: “Aquela criaturinha que ali vai cantando é a menina Joana. Olhem só como ela cominha resoluta, com seus passos largos...” (VERISSIMO, 1958, p. 05). O prefácio é a maior pista de que Verissimo sabia o que fazia: iniciava um diálogo com um público que ainda não possuía, tratando-o por velho conhecido. Nela, confidencia sua escolha temática e a forma de sua escrita: “Vem da infância essa minha fascinação pela personalidade e pela vida de Joana D!Arc. Creio que tudo começou numa sala de cinema provinciano onde assisti, maravilhado, à exibição dum filme francês que narrava as aventuras da Pucelle, encarnada pela famosa Mlle. Falconière. Vinte anos depois decidia eu escrever a história da donzela para crianças. Mergulhei na leitura dos principais livros que existiam sobre o assunto ao mesmo tempo que começava minha narrativa num estilo simples e poético à altura da compreensão de meninos e meninas entre seis e treze anos. À medida, porem, que ia conhecendo melhor a historia de Joana d’Arc, eu me convencia de que seria uma pena ter de reduzir a narrativa a menos de uma centena de páginas – conforme ficara combinado com o editor – e a um limitado número de episódios, como convinha ao gosto da clientela a que o livro se destinava. Acabei mandando para o diabo todas as limitações e escrevi a história como achei que deveria escrevê-la, sem pensar em conveniências tipográficas nem na idade de seus possíveis leitores. O resultado é este livro em que a vida da Donzela aparece romanceada até onde me foi possível fazer isso sem trair a verdade histórica. Procurei dar ao livro o aspecto de um vitral – daí a simplicidade de seu desenho e a sua riqueza de cores. (...)”. (VERISSIMO, 1935, s/nº) É em 1936, ano do nascimento de Luis Fernando, seu segundo filho, que quatro novos livros vêm a público: As aventuras do avião vermelho, Os três porquinhos pobres e Rosa Maria no castelo encantado – reeditados até hoje –, mais o abecedário Meu ABC. Em As aventuras do avião vermelho o escritor inicia a narrativa sem se dirigir ao leitor e, apenas no final, apresenta-se timidamente em condição de igualdade com a personagem, exercendo o que se pode denominar narrador-personagem em um comentário referente ao desenlace da narrativa: “Quando a gente é pequeno, do tamanho dum dedo minguinho, cada dia dos homens grandes vale cinco dos nossos” (VERISSIMO, 2003, p. 43). Na narrativa intitulada Os três porquinhos pobres o procedimento é semelhante em todo o desenrolar da história: Verissimo escolhe ser um narrador-onisciente. No entanto, ao final do texto, julgando o momento de equilíbrio em que a vida dos porquinhos chegou, exerce a tarefa de narrador-observador: “E eu mesmo acho que a vida que eles levam agora no chiqueiro é mesmo muito boa. Pelo menos enquanto não chegar o Natal...” (VERISSIMO, 2003, p. 43). Já em Rosa Maria no castelo encantado, o procedimento é diferente desde o primeiro parágrafo, no qual o narrador, em primeira pessoa, além de se apresentar, oferece ao leitor uma distinção entre o mundo dos adultos – racional – e o mundo das crianças, uma novidade em termos de linguagem dedicada à infância: “Eu sou um mágico. Moro num castelo encantado. Os homens grandes não sabem de nada. Só as crianças que conhecem o meu segredo... (...) Só as crianças é que enxergam o meu castelo encantado. (...) Mas não adianta a gente ficar conversando assim à toa. O melhor é eu contar logo a visita que Rosa Maria fez ao meu castelo maravilhoso.” (Verissimo, 2003, p. 3-4). No final do texto, após todas as peripécias de Rosa Maria no Castelo, o narrador volta-se novamente para o seu público e convida: “E vocês, meninos e meninas, quando vierem à cidade onde eu moro, não deixem de visitar o meu castelo encantado. Eu sou um mágico.” (VERISSIMO, 2003, p. 43). Dando continuidade a seu projeto, Verissimo publica, em 1937, As aventuras de Tibicuera. Nele, em páginas pré-textuais, caracterizando, agora sim, um típico protocolo de leitura, o ficcionista instiga os leitores a realizarem exercícios com a língua materna: “Eu poderia encher este livro com notas explicativas de certas palavras. Prefiro, entretanto, que vocês recorram ao dicionário, habituando-se a consultá-lo em casos de dúvida ou desconhecimento. É um bom exercício não só de paciência como também de honestidade intelectual. E no fim das contas sempre gravamos melhor na memória o significado das palavras que nos levaram a folhear dicionários” (VERISSIMO, 1947, p. 9). Inserido no conjunto de produtos culturais da “Era Vargas”, As Aventuras de Tibicuera oferecem, no que diz respeito ao conteúdo, semelhança com os livros didáticos, segundo Gomes (2003, p. 124). No entanto, pela construção do enredo, dos personagens e forma como Erico narra, se diferencia dos livros didáticos da época Definido no concurso para crianças maiores de 10 anos, o livro possibilitou, dessa forma, “um aprendizado gostoso, o que não é pouco para quem desejava ensinar as crianças a conhecer e amar o Brasil, independentemente de regimes políticos que pudessem estar a governá-lo”, diz Gomes (2003). Dedicado aos filhos Clarissa e Luiz Fernando, no prólogo Verissimo informa: Aqui estão as aventuras de Tibicuera contadas por ele próprio. O herói narra sua espantosa viagem que começou numa taba tupinambá antes de 1500 e terminou num arranhacéu de Copacabana em 1937. Não hesito em passar para as mãos de vocês esse romance, porque no fundo ele conta também muito das aventuras do nosso Brasil. (...) Se você s não gostarem do romance que vão ler, não me culpem. Tibicuera é o autor. E que, se mostra disposto a receber flores e aplausos não deve fugir às vaias e aos repolhos... (VERISSIMO, 1947, p.9) No ano seguinte, 1938, foi a ano em que Erico publicou O urso com música na barriga. Nele, logo no primeiro parágrafo, o diálogo com o leitor: “O Bosque perdido é mesmo uma coisa maravilhosa! Se você entrasse nele, ficaria de boca aberta, olhando para tudo, com ar de bobo...” (VERISSIMO, 2003, p. 03). Depois de toda a narrativa, em que não mais se dirige diretamente ao leitor, na última página, a retomada: “E você, meu amigo, às vezes, de noite ou mesmo de dia, não escuta uma musiquinha misteriosa que não sabe de onde vem? Pois fique certo de que é a musiquinha do ursinho da barriga misteriosa, a musiquinha que nos vem trazida pelo vento, que é o melhor e o mais rápido dos meninos de recado” (VERISSIMO, 2003, p. 43). Em 1939, dois novos livros de literatura para crianças, de autoria de Erico Verissimo, foram postos em circulação pela Editora Globo: A vida do elefante Basílio e Outra vez os três Porquinhos. A grande novidade aparece em A vida do elefante Basílio, no qual Verissimo organiza um Sumário composto por treze títulos iniciado por: “Que é Biografia?”. Na página indicada, ele responde: “Biografia é a história da vida duma pessoa, dum animal ou duma coisa. Esta história que vocês estão lendo conta a vida do Elefante Basílio; logo, é uma biografia” (VERISSIMO, 2003, p. 5). Nesta mesma página, a linguagem de Verissimo se afina, ele brinca com seus leitores: “Em geral a gente só conta a vida dos homens importantes, dos santos, dos exploradores, dos generais, dos reis, dos inventores, dos artistas etc... O elefante Basílio não é santo, não é explorador, não é general, não é rei, não é inventor, não é artista e também não é etc... Por que é então que eu estou aqui contando a história dele? A razão é simples: o Elefante Basílio é um sujeito muito bom. O Elefante Basílio tem uma vida cheia de aventuras. O Elefante Basílio é um amigo sincero. O Elefante Basílio é, enfim, o tipo do herói esquecido. Estou certo que vocês vão acabar apaixonados pelo Elefante Basílio” (VERISSIMO, 2003, p. 05). Em Outra vez os três Porquinhos Verissimo, logo no primeiro parágrafo, situa os leitores a respeito da história anterior: “Os que leram a história chamada Os três porquinhos pobres sabem como foi que os irmãos sabugo, Salsicha e Linguicinha vieram parar no quintal da menina do chapéu verde. Pois é...” (VERISSIMO, 2003, p. 03). Ao final, suspeita novas aventuras: “os três porquinhos param ao Sol e conversam em voz baixa. Que novas travessuras estarão planejando? Jacaré sabe? Nem eu...” (VERISSIMO, 2003, p. 51). Neste mesmo ano, 1939, foi a vez de Aventuras no mundo da higiene – um livro destinado à escolarização e, possivelmente, inserido nos projetos do Estado Novo para a Infância – e Viagem à Aurora do Mundo, completando a produção de onze títulos destinados ao público infanto-juvenil. Em Aventuras, Erico dedica uma página aos mestres, na qual argumenta que a infância precisa de uma linguagem adequada e, também, de ilustrações: “Meu amigo. É inútil franzir a testa, engrossar a voz e falar difícil quando queremos ensinar. O aluno só se entrega de corpo e alma àquele que lhe contar a melhor história de fadas ou aventuras. A estrada mais curta e certa para a inteligência tem passagem obrigatória pelo coração. Não será humano tentar outros caminhos... Neste livro procurei fazer com que as noções de higiene viajassem para o entendimento das crianças confortavelmente instaladas no trem colorido da ficção. Fiz o possível para que a viagem fosse divertida, rápida, sem enjôos nem solavancos. Não basta que se diga tiranicamente aos alunos “Matem as moscas e bebam mais leite”. É preciso explicar por que as moscas são nocivas e por que o leite é benéfico à saúde. Num momento em que tôda a gente procura aprender a comer, não seria lógico que eu passasse em vôo de avião por cima do importante capítulo da alimentação. O texto vai cheio de ilustrações, pois não deixa de ter muita razão quem afirmou que o único livro do mundo que dispensa as gravuras é o “Guia Telefônico”... Bôa Viagem! E.V.” (VERISSIMO, 1939, p. 07). Criado possivelmente a partir de uma solicitação do Ministério da Educação e Saúde Pública para as campanhas em favor da boa alimentação e de bons hábitos de higiene, As aventuras no Mundo da Higiene trazem, “de forma lúdica e com inúmeras ilustrações de João Fahrion, uma “viagem” sobre as noções de higiene. Para a Editora Globo, o livro integrou a Coleção Burrinho Azul. Ilustrado por João Fahrion, no primeiro capítulo “O princípio da Aventura”, Verissimo solicita às crianças que observem o personagem que denominou “Patinho Feio”, sua imagem para as crianças que se alimenta mal. Informa que ele tem 10 anos de idade, é “magro como um sagui”, tem olhos “tristes como os de cachorro sem dono, parados como os de peixe morto” (VERISSIMO, 1939, p. 09). Ao utilizar-se de personagens crianças para dar lições de higiene, de alimentação correta e de bons hábitos em geral (ANDREOTTI, 2009), Verissimo oferece ampla e variada gama de informações sobre os cuidados com o corpo e se propõe a ensinar como este corpo, sistema a sistema, funciona. Através de conselhos úteis como “alimentar-se de acordo com os conselhos de higiene” e “dormir bem em quarto arejado e silencioso”, há indicações do escritor: “escolher livros sãos para ler, ouvir boa música e amar o que o mundo nos oferece de bonito, limpo e agradável” (Verissimo, 1939, p. 91) Livros como o de Verissimo, segundo Andreotti (2009) circularam entre 1930 e 1970 no Brasil, fruto de políticas de Estado que, diante de informações oriundas de estudos dietéticos que denunciavam a deficiência calórica da dieta dos trabalhadores, passaram a criar alternativas. Assim, a criação de comissões, campanhas, regulações, tabelamentos foram medidas adotadas. Para Hartmann & Diniz (2008, p. 4-5), a escola foi a instituição onde pareceu ser possível, naquele momento, atingir amplos segmentos da população no sentido de normalizar, homogeneizar, disciplinar, ordenar, higienizar hábitos e comportamentos o que explicaria a linguagem adotada popr Verissimo na obra. Obra do ano de 1939, Viagem à Aurora do Mundo: O romance da Prehistoria foi inserido na coleção Tapete Mágico que a Editora Globo publicou. O subtítulo da coleção era: “Viagens pelo mundo da cultura”. Totalmente diferente dos demais, logo no início de suas 300 páginas Verissimo promete ao leitor, descompromisso com a imaginação: “Este livro – consequência de um feriado que concedi à imaginação – não tem nenhum compromisso com a psicologia e a verosimilhança e muito menos com os problemas sociais do momento. Trata-se duma fantasia quase didática na forma de romance e seu objetivo principal é dar ao leitor uma idéia do mundo prehistórico, tal como os cientistas o reconstituíram. E.V.” (VERISSIMO, 1939, p.07): Para complementar a análise de protocolos de leitura inseridos na obra de Verissimo, necessário ler o que escreveu trinta anos após sua primeira publicação. Denominado Gente e Bichos (1965), na introdução há uma declaração de intenções: “Destinei minhas narrativas a crianças entre quatro e dez anos. Quero dizer, escrevi-as de tal modo que, se uma pessoa ler esses contos para crianças ainda não alfabetizadas, estas poderão compreendê-los” (VERISSIMO, 1965, s/n). De acordo com Gomes (2003, p. 122), a obra que Verissimo deixou, poderia ser hoje e com alguma licença, considerada “uma literatura paradidática”. A autora argumenta que, os onze títulos podem ser distribuídos em dois subgrupos pelos estudos literários que a ela se dedicam: um primeiro grupo, considerado stricto sensu de textos de literatura infantil (Os três porquinhos pobres (1936), As aventuras do avião vermelho (1936), Rosa Maria no castelo encantado (1936), O Urso com música na barriga (1938), A vida do Elefante Basílio (1939) e, em 1939, Outra vez os três porquinhos)e um segundo grupo, formado por cinco textos, integrado por narrativas mais voltadas para o público escolar (Meu ABC (1936), Aventura no Mundo da Higiene (1939), A Vida de Joana D’Arc, de 1935, As Aventuras de Tibicuera, de 1937, e Viagem a Aurora do Mundo, de 1939). Período em que Erico Veríssimo se afirma como autor de livros para crianças, tanto pelo volume, como pela qualidade de sua obra, os anos 30 do século XX oportunizam a evidência, para Borges (2003, p. 123-124) de um “elenco de autores engajados nesse tipo de proposta, cujo grande nome antecessor e renovador” foi Monteiro Lobato. Para a pesquisadora, não é “casual” que educação e literatura infantil vivam uma renovação entre 20 e 30 e ganhem após esse tempo “inclusive favorecidas por políticas públicas do Ministério da Educação e Saúde”. Acredita, no entanto, que a “tradição intelectual a que Erico Veríssimo se filia” deve ser pensada “numa dupla chave, com evidentes articulações: de um lado, uma literatura mais didática, sobretudo referente à história do Brasil ou do que se conhecia como educação moral e cívica; de outro, uma literatura infantil, muito pobre antes dos anos 1920, mas que começava a crescer”.

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Olá, bem vindo!

Um "Alfabeto à parte" foi criado em setembro de 2008 e tem como objetivo discutir a leitura e a literatura na escola. Nele disponibilizo o que penso, estudos sobre documentos raros e meus contos, além de uma lista do que gosto de ler.

Em 2013 concluí pesquisa sobre o Abecedário Ilustrado Meu ABC, de Erico Verissimo, publicado pelas Oficinas Gráficas da Livraria do Globo em 1936. O lançamento do livro e sua repercussão estão no Blog. Alguns artigos sobre a pesquisa também. Leia e dê sua opinião.

A novidade, em 2015, foi a inauguração da Sala de Leitura Erico Verissimo, um sonho antigo que agora se realiza. Em 2016, o processo de restauro da Biblioteca na Escola Fernando Treptow, inaugurada em 25 de novembro.

Em 2017 estou produzindo a Biografia de João Bez Batti. Através de relatos pessoais nos quais a criançaque João foi é a personagem principal, recosntruo, com narrativas litetárias, seu descobrimento como escultor. Bilíngue (português e italiano) o livro tem data para ser lançado: 11/11/2017.

Abraço

Cristina