terça-feira, 8 de agosto de 2017

Fidedignidade: uma questão de pesquisa

Fidedignidade: uma questão de pesquisa
Cristina Maria Rosa

Na aula de Literatura Infantil do dia 08 de agosto de 2017 dialogamos sobre fidedignidade. O assunto surgiu a partir dos resultados de pesquisa comunicados em recente evento, quando parte das informações disponibilizadas pelos pesquisadores foram contestadas. Esse episódio – rico para quem pesquisa – evidenciou, para nós autores, o quanto um público culto, bem informado e atento é importante para que aprendamos mais e mais.
Mas vamos ao que nos propusemos...
Tu sabes o que é fidedignidade?
É ser fiel à verdade, ser leal, exato, verídico. Em pesquisa, é ser capaz de expressar o que se os dados revelam. Para o dicionário Aurélio, é a “Qualidade daquele ou daquilo que é fidedigno” e fidedigno, é “digno de todo o crédito”.
Todo pesquisador, mesmo que discorde de resultados de pesquisas a partir de evidências que os dados revelam, deseja ser fidedigno. Deseja ser capaz de revelar, a si mesmo e aos demais, as informações que, em entrevistas, questionários e observações pode colher como retrato de um tempo, um momento, uma realidade.
Mas pesquisar é muito mais do que ser fidedigno, uma vez que pressupõe relação entre dados. E essas relações são de vários tipos, entre eles, as relações de inteligência (pensar) sobre as revelações, de dúvida (questionar) sobre os dados e suas revelações, de ponderação (supor) sobre o evidenciado, de afirmação (concluir) de pequenas “verdades” e de estabelecimento de parâmetros (generalizar) para pesquisar mais e com maior afinco.
No entanto, nenhuma pesquisa pode deixar de ser fidedigna, sob o risco de perder a credibilidade.
Pesquisa Qualitativa
A pesquisa e, especialmente, a pesquisa de cunho qualitativo, de acordo com Van Zanten (2004) pressupõe que o ponto de vista do investigador seja “um pouco mais válido do ponto de vista científico” que os demais olhares a respeito do mesmo fenômeno, pois este olhar – o do pesquisador – “representa rigor no trabalho de investigação”.
Por ser um trabalho no qual se aplica técnicas, seus resultados se inscrevem em um campo de produção científica, mesmo quando se trata de um estudo pequeno, localizado. Assim, sua validade diz respeito à contribuição que oferece a um conhecimento já existente.
É bom lembrar que toda investigação aponta algo novo ao campo total de conhecimento e esse “novo” pode ser um olhar a respeito de um fenômeno, uma forma de olhar, um recorte que revela algo inusitado, uma peculiar relação estabelecida entre dados e mesmo, a negação de tudo que anteriormente se sabia a respeito do estudado.
A questão central em pesquisa qualitativa não é o tamanho do grupo que se estuda e, sim, o enfoque que se pode dar aos dados revelados. E não se pode ignorar que a maneira como são restituídos os resultados também produzem efeitos nas idéias e em sua generalização. Ou seja, a cada vez que se disponibilizam dados coletados, estes se integram ao público que os conhece que, desta forma, se torna mais culto em relação ao fenômeno.
Fidedignidade: os títulos lembrados
Na aula de hoje o tema foi Fidedignidade. Para exemplificar o que é e como essa expressão aparece no campo da pesquisa qualitativa, realizei, com as alunas presentes, uma mini investigação: solicitei que todas respondessem se alguém já havia lido um texto, um livro ou mesmo um fragmento de livro para elas na Universidade. Todas responderam que sim.
O próximo passo foi solicitar que escrevessem, em seus cadernos, quais os títulos e autores do texto ou dos textos que lhes haviam sido apresentados. Poderiam também, utilizar os gêneros conhecidos na disciplina, uma vez que o foco da Literatura Infantil I ofertada de forma optativa na Licenciatura em Pedagogia, é o contato intenso com gêneros, autores e obras.
Depois de certo tempo, uma a uma, todas leram, em voz alta e para as colegas, os títulos que lhes ficaram na memória. E foram setenta e cinco os títulos lembrados, entre clássicos da literatura universal, clássicos brasileiros, regionalistas, poetas encantadores e autores moderníssimos. Do total de textos mencionados, 38 (50,66%) representaram a variedade, uma vez que muitos leram ou lembraram as mesmas obras.
Quer conhecer os mencionados? A seguir, em ordem alfabética de títulos e com fidedignidade, o resultado da pesquisa de hoje.
Títulos e seus autores:
1.                  A cozinha encantada dos contos de fada, de Katia Canton;
2.                  A história mais triste do mundo, de Mário Corso;
3.                  A revolta dos gizes de cera, de Drew Day Walt e Oliver Jeffers;
4.                  A vida do Elefante Basílio, de Erico Verissimo;
5.                  Artinha de Leitura, de João Simões Lopes Neto;
6.                  As aventuras do avião vermelho, de Erico Verissimo;
7.                  Assim assado, de Eva Furnari;
8.                  Azul e lindo planeta terra nossa casa, de Ruth Rocha;
9.                  Baú de espantos, de Mário Quintana
10.              Biblioteca, de Manoel de Barros;
11.              Chapeuzinho Amarelo, de Chico Buarque;
12.              Chapeuzinho Vermelho, de Charles Perrault;
13.              De fora da Arca, de Ana Maria Machado;
14.              Dona Baratinha, de Ana Maria Machado;
15.              Fadas no Divã, de Diana e Mário Corso;
16.              Histórias do Mundo para crianças, de Monteiro Lobato;
17.              Lobato em Quadrinhos, de Monteiro Lobato;
18.              Lulu, de Fabrício Carpinejar;
19.              Mania de explicação, de Adriana Falcão
20.              Memórias da Emília, de Monteiro Lobato;
21.              Monstruário, de Mário Corso
22.              Não confunda, de Eva Furnari;
23.              Negrinha, de Monteiro Lobato;
24.              O gato de bombachas, de R. S. Keller e Marcio Melgareco;
25.              O mágico de Oz, de Lyman Frank Baum
26.              O noivo ladrão, de Jacob e Wilhelm Grimm;
27.              O príncipe sapo, de Jacob e Wilhelm Grimm;
28.              O sítio do Picapau Amarelo, de Monteiro Lobato;
29.              O soldadinho de chumbo de Hans Christian Andersen;
30.              Os fantásticos livros voadores de Modesto Máximo, de William Joyce;
31.              Os três porquinhos pobres, de Erico Verissimo;
32.              Os três porquinhos preguiçosos, de Jacob e Wilhelm Grimm;
33.              Poemas que escolhi para crianças, de Ruth Rocha;
34.              Reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato;
35.              Rosa Maria no castelo encantado, de Erico Verissimo;
36.              Sapato furado, de Mário Quintana;
37.              Sapo amarelo, de Mário Quintana;
38.              Um violão e uma viola, de Ana Maria Machado

Concluindo
A fidedignidade pressupõe, também, dignidade e ser digno é ser merecedor do respeito de nossos orientandos. Ser digno, é ser merecedor do olhar admirado do outro. Ser digno é qualificar e preservar o maior bem público: o conhecimento.
Ao concluir este pequeno exercíco de pesquisa, em uma manhã de inverno em agosto de 2017, aprendi e ensinei. Dividi o que sei e observei o que ainda preciso aprender.
Minhas alunas, atualmente, serão colegas, em breve. Pedagogas que, como eu, precisam aprender a ouvir para, com dignidade e fidedignidade, falar.
Estamos no caminho! 

Referências:
ROSA, Cristina. Perfil leitor do estudante de Pedagogia 2017-2019. Projeto de Pesquisa. Disponível em: http://peteducacao.blogspot.com.br/p/planejamento-2017.html
Van Zanten, Agnès. Pesquisa qualitativa em educação: pertinência, validez e generalização. PERSPECTIVA, Florianópolis, v. 22, n. 01, p. 25-45, jan./jun. 2004. Disponível em: http://josenorberto.com.br/03_artigo_zanten.pdf

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Meninas, seus sonhos e caminhos

Meninas, seus sonhos e caminhos
Cristina Maria Rosa

“Os humanos são os únicos animais que podem pensar outras maneiras de fazer coisas em outro tempo e em outro lugar. Estas ideias são experimentadas primeiro na linguagem, no jogo ou através da imaginação” (Teresa Colomer).

Quem escreveu...
Christine Castilho Fontelles é cientista social formada pela PUC/SP com MBA em marketing pela FIA/FEA/USP. Consultora de Educação no Instituto Ecofuturo, organização da qual foi co-idealizadora e onde criou e dirigiu o Programa “Ler é Preciso” por 15 anos. É conselheira do Movimento por um Brasil Literário e da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ). Fundadora da Centhral do Brasil Consultoria de projetos de educação para a leitura e escrita e sustentabilidade.

O que escreveu...
Christine escreveu um artigo (disponível na íntegra no site do MBL) intitulado “Eu sou e eu quero!”. Quantas meninas conseguem seguir seus sonhos e quantas ficam pelo caminho?

O artigo
“Cresci e vi a violência de perto, e hoje nada mudou. Se eu pudesse melhorar o mundo, ia ser melhor pra todo mundo. E eu queria melhorar o mundo hoje”. A frase-depoimento integra a redação de Aline, 8 anos, segunda colocada num concurso de redação realizado pelo Instituto Ecofuturo em âmbito nacional nos idos de 2007. Hoje a pequena Aline está adolescente com seus 17 anos. O que teria visto ela que com apenas 8 anos já se dizia “crescida”? Teria, apesar do ambiente externo hostil, conseguido seguir seu sonho? “E assim resolvi que quando eu crescer quero ser bailarina, porque ali está a paz de que preciso para entender o mundo”, escreveu. Terá se tornado bailarina?
Nós de todos os cantos do mundo parecemos paralisados diante das estatísticas de todas as ordens que há tempos anunciam os descuidados com a infância, a violência contra meninas, com as mulheres, com a vida. Quantas meninas conseguem seguir seus sonhos e quantas ficam pelo caminho? Gabriel Garcia Marquez dizia que “o machismo, tanto nos homens quanto nas mulheres, não é mais que a usurpação do direito alheio”. Como é urgente educar para o amor e para apreciação das diferenças, sobretudo nós que não vivemos mais em tempos de meninos e meninas; gostem ou não, a diversidade é a pauta da vida, de gênero, inclusive. A vida pede um novo vocabulário, que a acolha em sua plenitude. Um novo pensamento e uma nova ação
Trajetória
Passados 200 mil anos da nossa presença na Terra – que já conta com 4,5 bilhões de anos -, ainda engatinhamos e tropeçamos na habilidade de promover os cuidados que a vida pede e merece. Somos, como espécie, um segundo na eternidade do universo, que tem entre 12 e 20 bilhões de anos. Isso esclarece os tempos dramáticos em que vivemos, que não são de hoje, mas que hoje batem diariamente à nossa porta pela comunicação online em tempo real?  O caminho que devemos trilhar parece simples, afinal dividimos a mesma casa, o planeta Terra, e deveria ser do nosso interesse garantir que todos aqui dentro estivessem bem cuidados. Infelizmente, nada é simples quando se trata do bicho homem.
O projeto/trajeto de humanidade que perseguimos e que nos encanta está enredado num sem fim de contradições, e sobre isso a literatura é tão pródiga em nos revelar.
Uma passagem de Alice no País das Maravilhas oferece um bom alerta sobre a importância das nossas escolhas para alcançar nosso ideal como sujeito e sociedade neste mundo: “Poderia me dizer, por favor, que caminho devo tomar para sair daqui?”, pergunta Alice. “Isso depende bastante de onde você quer chegar”, disse o Gato. “O lugar não importa muito…”, disse Alice. “Então não importa o caminho que você vai tomar”, conclui o Gato.
Caminhos
E porque tanto o lugar quanto a travessia importam, apostamos na literatura como iniciação na estrada do que significa ser e tornar-se este ser humano sensível e solidário às múltiplas, únicas e igualmente valiosas formas de vida: #nenhumaamenos. Diz a pesquisadora Teresa Colomer, citando Vigotski, em seu livro A formação do leitor literário“Os humanos são os únicos animais que podem pensar outras maneiras de fazer coisas em outro tempo e em outro lugar. Estas ideias são experimentadas primeiro na linguagem, no jogo ou através da imaginação”. Ou seja, navegando pelo texto literário. Como para além das denúncias, existem os caminhos, é tão vital o alerta do Gato de Alice.

“Vou lutar muito para realizar o meu sonho”, disse Aline no país chamado Brasil. “… Alice levantou-se e saiu correndo, pensando enquanto corria que aquele tinha sido mesmo um sonho maravilhoso”, ela que habitou o país das maravilhas. A palavra que não passa pelo coração não chega ao céu. Devemos isto às nossas crianças de todos os cantos do mundo, aqui e agora.


Alfabeteando...

Um "Alfabeto à parte" foi criado em setembro de 2008 e tem como objetivo discutir a leitura e a literatura na escola. Nele disponibilizo o que penso, estudos sobre documentos raros e meus contos, além de uma lista do que gosto de ler. Alguns momentos importantes estão aqui. 2013 – Publicação dos estudos sobre o Abecedário Ilustrado Meu ABC, de Erico Verissimo, publicado pelas Oficinas Gráficas da Livraria do Globo em 1936; 2015 – Inauguração da Sala de Leitura Erico Verissimo, na FaE/UFPel; 2016 – Restauro e ambientação da Biblioteca na Escola Fernando Treptow, inaugurada em 25 de novembro; 2017 – Escrita da Biografia literária de João Bez Batti, a partir de relatos pessoais. Bilíngue – português e italiano – tornou-se um E-Book; 2018 – Feira do Livro com Anna Claudia Ramos (http://annaclaudiaramos.com.br/). 2019 – Produção de Íris e a Beterraba, um livro digital ilustrado por crianças; 2020 – Produção de Uma quarentena de Receitas, um livro criado para comemorar a vida; 2021 – Ruas Rosas e Um abraço e um chá, duas produções com a UNAPI; 2022 – Inicio de Pesquisa de Pós-Doutorado em acervos universitários. Foco: Há livros literários para crianças que abordem o ECA? 2023 – Tragicamente obsoletos: Publicação de um catálogo com livros para a infância.

Arquivo do blog