segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Meninas, seus sonhos e caminhos

Meninas, seus sonhos e caminhos
Cristina Maria Rosa

“Os humanos são os únicos animais que podem pensar outras maneiras de fazer coisas em outro tempo e em outro lugar. Estas ideias são experimentadas primeiro na linguagem, no jogo ou através da imaginação” (Teresa Colomer).

Quem escreveu...
Christine Castilho Fontelles é cientista social formada pela PUC/SP com MBA em marketing pela FIA/FEA/USP. Consultora de Educação no Instituto Ecofuturo, organização da qual foi co-idealizadora e onde criou e dirigiu o Programa “Ler é Preciso” por 15 anos. É conselheira do Movimento por um Brasil Literário e da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ). Fundadora da Centhral do Brasil Consultoria de projetos de educação para a leitura e escrita e sustentabilidade.

O que escreveu...
Christine escreveu um artigo (disponível na íntegra no site do MBL) intitulado “Eu sou e eu quero!”. Quantas meninas conseguem seguir seus sonhos e quantas ficam pelo caminho?

O artigo
“Cresci e vi a violência de perto, e hoje nada mudou. Se eu pudesse melhorar o mundo, ia ser melhor pra todo mundo. E eu queria melhorar o mundo hoje”. A frase-depoimento integra a redação de Aline, 8 anos, segunda colocada num concurso de redação realizado pelo Instituto Ecofuturo em âmbito nacional nos idos de 2007. Hoje a pequena Aline está adolescente com seus 17 anos. O que teria visto ela que com apenas 8 anos já se dizia “crescida”? Teria, apesar do ambiente externo hostil, conseguido seguir seu sonho? “E assim resolvi que quando eu crescer quero ser bailarina, porque ali está a paz de que preciso para entender o mundo”, escreveu. Terá se tornado bailarina?
Nós de todos os cantos do mundo parecemos paralisados diante das estatísticas de todas as ordens que há tempos anunciam os descuidados com a infância, a violência contra meninas, com as mulheres, com a vida. Quantas meninas conseguem seguir seus sonhos e quantas ficam pelo caminho? Gabriel Garcia Marquez dizia que “o machismo, tanto nos homens quanto nas mulheres, não é mais que a usurpação do direito alheio”. Como é urgente educar para o amor e para apreciação das diferenças, sobretudo nós que não vivemos mais em tempos de meninos e meninas; gostem ou não, a diversidade é a pauta da vida, de gênero, inclusive. A vida pede um novo vocabulário, que a acolha em sua plenitude. Um novo pensamento e uma nova ação
Trajetória
Passados 200 mil anos da nossa presença na Terra – que já conta com 4,5 bilhões de anos -, ainda engatinhamos e tropeçamos na habilidade de promover os cuidados que a vida pede e merece. Somos, como espécie, um segundo na eternidade do universo, que tem entre 12 e 20 bilhões de anos. Isso esclarece os tempos dramáticos em que vivemos, que não são de hoje, mas que hoje batem diariamente à nossa porta pela comunicação online em tempo real?  O caminho que devemos trilhar parece simples, afinal dividimos a mesma casa, o planeta Terra, e deveria ser do nosso interesse garantir que todos aqui dentro estivessem bem cuidados. Infelizmente, nada é simples quando se trata do bicho homem.
O projeto/trajeto de humanidade que perseguimos e que nos encanta está enredado num sem fim de contradições, e sobre isso a literatura é tão pródiga em nos revelar.
Uma passagem de Alice no País das Maravilhas oferece um bom alerta sobre a importância das nossas escolhas para alcançar nosso ideal como sujeito e sociedade neste mundo: “Poderia me dizer, por favor, que caminho devo tomar para sair daqui?”, pergunta Alice. “Isso depende bastante de onde você quer chegar”, disse o Gato. “O lugar não importa muito…”, disse Alice. “Então não importa o caminho que você vai tomar”, conclui o Gato.
Caminhos
E porque tanto o lugar quanto a travessia importam, apostamos na literatura como iniciação na estrada do que significa ser e tornar-se este ser humano sensível e solidário às múltiplas, únicas e igualmente valiosas formas de vida: #nenhumaamenos. Diz a pesquisadora Teresa Colomer, citando Vigotski, em seu livro A formação do leitor literário“Os humanos são os únicos animais que podem pensar outras maneiras de fazer coisas em outro tempo e em outro lugar. Estas ideias são experimentadas primeiro na linguagem, no jogo ou através da imaginação”. Ou seja, navegando pelo texto literário. Como para além das denúncias, existem os caminhos, é tão vital o alerta do Gato de Alice.

“Vou lutar muito para realizar o meu sonho”, disse Aline no país chamado Brasil. “… Alice levantou-se e saiu correndo, pensando enquanto corria que aquele tinha sido mesmo um sonho maravilhoso”, ela que habitou o país das maravilhas. A palavra que não passa pelo coração não chega ao céu. Devemos isto às nossas crianças de todos os cantos do mundo, aqui e agora.


Biblioteca escolar: uma proposta de organização do espaço e do acervo

A obra de restauro
Ao restaurar e entregar à comunidade da Escola Estadual de Ensino Fundamental Fernando Treptow a nova Biblioteca Escolar em novembro de 2016, a equipe de estudantes do GELL – Grupo de Estudos em Leitura Literária liderado pelo Drª Cristina Maria Rosa (FaE/UFPel), criou uma forma de gerir o público com economia e responsabilidade.
O espaço de 100 metros quadrados ficou pronto para uso e foi inaugurado com uma visita guiada, na qual aspectos do restauro foram abordados e explicitados pelos integrantes da equipe aos visitantes.

Os espaços propostos e organizados:
Organizado em cinco ambientes –  recepção, leitura individual, espaço de pesquisa, miniauditório e sala de leitura literária –, o restauro da estrutura e dos móveis além da ambientação foram os pontos-chave do restauro ocorrido na E.E.E.F. Fernando Treptow.
Para tal, a equipe reuniu recursos próprios (mão de obra e maquinaria), doações em materiais e dinheiro além de apoios eventuais. Concluiu a obra em 15 dias e meio de trabalho (124 horas), distribuídos em oito meses de atuação na escola ao custo de cinco mil reias.
O acervo
Para 2017 o grupo planejou a organização do acervo literário da escola, o que vem sendo feito a partir dos seguintes princípios:
1. Organização em gêneros literários;
2. Distribuição do acervo de acordo com faixas etárias dos usuários;
3. Delimitaçao de usos dos espaços em leitura literária, estudos de obras, estudo de didáticos e pesquisa em outros materiais, além de frequência a minicursos e saraus.
O foco é o uso autônomo dos espaços e dos acervos, pois a presença de adultos tutelando os pequenos nem sempre é disponibilizada pela escola, uma vez que esta não possui bibliotecária. 
Algumas micropolíticas já desenvolidas no espaço:
1. 3º Curso Mediadores em Leitura literária;
2. Leituras para Meninas;
3. Leitura de Monteiro Lobato para os 5º anos da escola,às quintas-feiras pela manhã;
4. Leitura de autores modernos para os 9º anos, às sextas-feiras pela manhã.
Resultados
Além de apresentar parte dos resultdos em eventos científicos no decorrer de 2016 e 2017, os demias reflexosa e resultados do trabalho serão publicados em dezembro de 2017.


Alfabeteando...

Um "Alfabeto à parte" foi criado em setembro de 2008 e tem como objetivo discutir a leitura e a literatura na escola. Nele disponibilizo o que penso, estudos sobre documentos raros e meus contos, além de uma lista do que gosto de ler. Alguns momentos importantes estão aqui. 2013 – Publicação dos estudos sobre o Abecedário Ilustrado Meu ABC, de Erico Verissimo, publicado pelas Oficinas Gráficas da Livraria do Globo em 1936; 2015 – Inauguração da Sala de Leitura Erico Verissimo, na FaE/UFPel; 2016 – Restauro e ambientação da Biblioteca na Escola Fernando Treptow, inaugurada em 25 de novembro; 2017 – Escrita da Biografia literária de João Bez Batti, a partir de relatos pessoais. Bilíngue – português e italiano – tornou-se um E-Book; 2018 – Feira do Livro com Anna Claudia Ramos (http://annaclaudiaramos.com.br/). 2019 – Produção de Íris e a Beterraba, um livro digital ilustrado por crianças; 2020 – Produção de Uma quarentena de Receitas, um livro criado para comemorar a vida; 2021 – Ruas Rosas e Um abraço e um chá, duas produções com a UNAPI; 2022 – Inicio de Pesquisa de Pós-Doutorado em acervos universitários. Foco: Há livros literários para crianças que abordem o ECA? 2023 – Tragicamente obsoletos: Publicação de um catálogo com livros para a infância.

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